Adriana Lage conversa com a fotógrafa Kica de Castro que possui uma agência de modelos com deficiência. Através de suas lentes e de um olhar sensível, a fotógrafa revela a beleza de pessoas com deficiência e quebra paradigmas.
Adriana Lage.
Sem falsa modéstia, sou considerada e me considero uma mulher bonita. Mas não pensem que foi fácil chegar a uma autoestima sólida. Querendo ou não, o fato de possuir uma deficiência física, ainda me faz ser considerada como fora do padrão. Muitas vezes, a sociedade encontra dificuldades em enxergar o belo em tudo o que é diferente. Grande ironia, uma vez que todos somos diferentes. Num mundo onde corpos sarados e perfeitos são tão valorizados, como encontrar a beleza em corpos mutilados, atrofiados, com nanismo e paralisados? O texto de hoje trata justamente sobre isso. A entrevista é um pouco longa, mas a história da fotógrafa Kica de Castro é encantadora! Com toda a sensibilidade do seu olhar de fotógrafa, ela está mostrando ao mundo que as pessoas com deficiência também possuem beleza, são sexy, podem ser modelo… Do começo difícil, tirando fotos para o prontuário médico, à criação da sua agência de modelos com deficiência, vamos conhecer um pouco mais sobre a fascinante história dessa mulher tão especial!
Na foto: Diego Madeira deficiente e Francceska Jovito sem deficiência.
Adriana Lage: De onde surgiu a vontade de trabalhar com pessoas com deficiência?
Kica de Castro: O começo foi uma oportunidade. Um desafio que aceitei. Minha graduação, comunicação Social com ênfase em publicidade e propaganda. Durante cinco anos, atuei em agências de publicidade, nas áreas de criação, planejamento e mídia. No ano de 2000, resolvi largar essa área. Antes de sair da publicidade, fiz alguns cursos livres de fotografias. Comecei a fotografar eventos sociais e corporativos, faço até hoje, principalmente casamentos. Em 2002, vi uma oportunidade de emprego em um classificado de jornal. Não tinha endereço e nem descrição do cargo, apenas mencionava que precisavam de um profissional na área de fotografia. Resolvi mandar o meu currículo. Na semana seguinte, recebi uma ligação, referente essa vaga. Tratava-se de um centro de reabilitação para pessoas com deficiência física. Na semana seguinte, fui contratada para ser chefe do setor de fotografias. Caí de “pára-quedas”. Era um desafio que estava ali na minha frente; resolvi mergulhar de cabeça e aprender com as novas experiências. Não tinha nenhum conhecimento em fotografias cientificas, resolvi estudar, fazer pesquisa e o melhor, tirar as dúvidas com os profissionais: médicos, fisioterapeutas, psicólogos… Confesso que os três primeiros meses, o período de experiência, não foi fácil, tanto para os pacientes que não ficavam a vontade com as fotos (de corpo inteiro, semi nus, nas quatro posições globais: frente, costa e as duas laterais. Juntamente com os números do prontuário, que ficavam em uma placa). Todos os retratados, faziam a seguinte observação: “são fotos para o presidiário”. Por mais que eu tentasse com humor dar uma resposta, os pacientes não ficavam bem com aquela situação. Passados os três primeiros meses de experiência, após ler muitos artigos científicos, ainda não tinha encontrado o caminho. Muitos pacientes, quando entravam no setor para fazer a foto para o prontuário, ficavam tão constrangidos, que alguns deixavam cair lágrimas discretamente. Essa era uma situação que eu não estava me sentindo uma profissional. Numa sexta-feira, fui ter uma conversa com uma amiga do setor de psicologia da mesma instituição. O conselho que recebi foi o melhor possível: “faça do seu trabalho, o mesmo que fazia nas agências de publicidade e de modelos”. Não tive dúvidas. No dia seguinte, um lindo sábado de sol, levantei cedo e fui para 25 de Março (centro comercial popular de São Paulo). Lá comprei tudo que um estúdio precisava: um pequeno espelho, maquiagem, bijus, pente, gel para o cabelo, e várias revistas de moda … Na segunda- feira, cheguei com tudo e mais um pouco, a “sacoleira”. Organizei o setor de forma diferente, mudei algumas coisas do lugar e a partir daqui, virou um estúdio fotográfico. As fotos continuaram sendo para prontuários médicos, mais antes de tirar a roupa, cada paciente tinha cinco minutos de contato com a vaidade. Quando surgia a pergunta para qual finalidade eram as fotos, a resposta estava na ponta da língua: ‘São uma prévia para um editorial de moda”. O melhor: tinha o objeto (revista) em mãos para mostrar, além de todos os acessórios. Com isso, o gelo foi sendo quebrado. Aos poucos, os pacientes começaram a sorrir largamente no lugar das lágrimas. Depois disso, juntamente com o setor de psicologia, começamos a fazer o resgate da auto-estima com as fotos, o que dei o nome de “Fototerapia”, projeto que ficou entre os anos de 2003 a 2005. Em 2004, muitos pacientes começaram a perguntar sobre a possibilidade de fazer books fotográficos, para arquivo pessoal. Como eu trabalhava na instituição, resolvi fazer o book. O que os pacientes pagavam eram o preço de custo (tudo era pago no caixa da instituição). Com o resultado das fotos, os pacientes ficaram empolgados, principalmente os do sexo feminino. Todos perguntavam se deviam levar as fotos em agências de modelos e produtoras. Incentivei, ao máximo, eles lutarem por essa oportunidade. Indiquei alguns antigos clientes e amigos do tempo de publicidade. Todas as respostas foram negativas, algumas com a esperança de entrar em contato futuramente. Isso foi um balde de água fria em todos, pacientes e eu. Resolvi fazer uma pesquisa sobre esse mercado de trabalho. Encontrei na Europa, Alemanha, um concurso de beleza: “A mais bela cadeirante”. Não achei inclusivo, mais o resultado, era bem melhor do que o preconceito que existe no Brasil. Na França e Inglaterra, encontrei um reality show, estilo Big Brother, apenas com pessoas com alguma deficiência. Bem mais inclusivo, só faltava a interação com as pessoas sem deficiência. Os produtos de consumo (aparelhos ortopédicos) ganham na Europa toda uma produção como um editorial de moda: modelo com um sorriso no rosto, cabelo ao vento, maquiagem impecável. Isso era o que faltava no Brasil: oportunidades. No ano de 2006, fiz a minha pós graduação em fotografia e levei para o meu trabalho de conclusão de curso a possibilidade de abrir uma agência. Foi o que fiz em 2007: abri uma agência de modelos para profissionais com alguma deficiência, motivada pelas pessoas com deficiência retratadas entre 2002 e 2007. As meninas retratadas ficaram me incentivando, dizendo que eu teria como levar essa possibilidade além de um TCC e até mesmo vencer todos os nãos que encontramos no caminho. Graças a Deus, a agência hoje é uma realidade. Todos os dias encontramos muitas barreiras, mas a disposição de
superá-las é bem maior.
Na foto: Priscila Menucci, atriz e modelo com nanismo.
AL: Querendo ou não, as pessoas com deficiência ainda são excluídas da sociedade por estarem fora do padrão. Você sofreu algum preconceito quando decidiu criar sua agência?
KC: Até hoje o preconceito é presente. Quando resolvi deixar a instituição, escutei de todos: “Isso é uma loucura, não existe a possibilidade de dar certo”. Isso incluindo algumas pessoas com deficiência que achavam que isso era um sonho impossível de realizar. A sorte é que existia uma pessoa que sabia que o trabalho não seria fácil, que o caminho era longo, porém, que, no futuro, teria bons resultados. Essa pessoa, eu mesma. Existem vários ditados populares que tenho anotado na minha agenda, há anos, entre eles:
- Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura;
- Quem planta colhe;
- Deus ajuda quem cedo madruga.
Quando apresento o meu casting ( termo em inglês – elenco), algumas pessoas acabam respondendo que não estão fazendo campanhas de inclusão e que mais para frente, entrarão em contato. Explico que os modelos são profissionais, que podem fazer campanhas publicitárias de produtos de consumo, como, por exemplo, pasta de dente, shampoo, sabonete… Além de ressaltar que são 45 milhões de consumidores, no Brasil, com alguma deficiência. Essas pessoas, com uma boa comunicação, podem passar a ser consumidores. Para qualquer empresa, ter 45 milhões de consumidores é “lucro” na certa.
Na foto: Caroline Marques Fashion Mob 2011.
AL: Seu trabalho te dá um bom retorno financeiro?
KC: Ainda está longe do ideal, isso falando de ser agenciadora de modelos com deficiência. As pessoas com deficiência, ainda não podem viver só da modelagem; elas precisam ter outras profissões. O preconceito da sociedade ainda é grande. Os trabalhos que conseguimos, dentro do campo passarela e editoriais de moda, são temporários e não efetivos.
AL: Qual o perfil dos seus principais clientes? Para quais tipos de trabalho as modelos são contratadas?
KC: Tenho clientes em vários segmentos, sendo a maior porcentagem em moda. Temos desfiles, editoriais de moda, cosméticos, semi-jóias, calçados, decoração floral, bolsas, vestido de noiva, recepção de eventos, etc.
AL: O salário de uma modelo com deficiência varia muito do valor pago a uma modelo sem deficiência? Poderia citar o cachê de uma modelo? Por exemplo, citar o valor que uma modelo recebe numa sessão de fotos ou num desfile?
KC: Em alguns casos, existe uma diferença de cachê. Algumas empresas acham que por ser uma pessoa com deficiência, o rendimento vai ser menor e por isso querem diminuir o cachê. Brigamos por igualdade, em todos os sentidos. Principalmente por igualdade no cachê. Não existe uma tabela de cachê: os valores têm uma variação de cliente para cliente e de acordo com a finalidade. Se por para desfile, avaliamos, o período do evento, horas, alimentação… Quando é anúncio publicitário, avaliamos o período no qual a imagem ficará em exposição. Faço a avaliação e mando o orçamento.
AL: Quais as principais vantagens e desvantagens de se trabalhar com modelos com deficiência?
KC: Pode parecer uma contradição, por ser dona de uma agência de modelos para pessoas com alguma deficiência, mas não vejo desvantagens. Um profissional com deficiência pode desempenhar uma atividade profissional como qualquer pessoa, sempre respeitando o seu limite. Pedir para um cadeirante pegar uma caixa que está na parte de cima de um armário, por exemplo, não tem lógica. Respeitando o limite de cada profissional, o trabalho pode ser desenvolvido sem problemas. É importante avaliar qual atividade precisa ser desenvolvida e escolher o profissional de acordo com a mesma. As desvantagens que vejo são a falta de acessibilidade em muitos estabelecimentos e transporte público, além da falta de sensibilidade por parte de algumas pessoas que não respeitam a lei – um exemplo que é comum: pessoas que usam as vagas de estacionamentos destinadas às pessoas com deficiência. Tendo isso, um profissional com deficiência pode atuar sem problemas. Não estou falando apenas na questão de ser modelo, falo para qualquer profissão.
AL: Quais requisitos são necessários antes da assinatura de um contrato com sua agência? Por exemplo, em caso de desfile, o ambiente precisa ser acessível, incluindo os bastidores (ops: como se chama o local onde as modelos ficam se arrumando?)?
KC: O cliente precisa oferecer acessibilidade para que o modelo possa desenvolver o seu trabalho da melhor forma possível, incluindo o backstage (bastidores).
AL: Como você escolhe as modelos da sua agência? Quais as características mais relevantes que elas devem ter?
KC: É feita uma entrevista e avaliação de perfil profissional. Muitas pessoas sonhavam em serem modelos e não tinha noção por onde começar. Após orientações, hoje são profissionais. Ser modelo requer muita disciplina, cuidado com aparência, vaidade na medida, cuidado com alimentação e atividades físicas. Malhar é de extrema importância, assim como uma alimentação correta.
AL: Quantas modelos existem no seu casting? Você trabalha com homens e mulheres?
KC: Atualmente, tenho 80 profissionais. Homens e mulheres, em território nacional, com algum tipo de deficiência. As idades variam de 4 a 60 anos.
Na foto: Maraísa Proença, amputada de membro inferior esquerdo.
AL: Quais são suas principais modelos? Você trabalha com modelos em todo país ou apenas em São Paulo?
KC: Todos os modelos são destaque. O cliente é que escolhe o perfil das modelos para realização do trabalho. Eu trabalho em território nacional. Minha agência é em São Paulo, por ser o estado de minha residência. Porém, o trabalho não é limitado apenas a esse estado.
AL: Caso uma pessoa queira ser modelo de sua agência, quais passos deverão ser seguidos? O que fazer?
KC: O primeiro passo é mandar duas fotos atuais, caseiras mesmo, em extensão jpeg, sendo uma de rosto e outra de corpo inteiro, com os dados: nome completo, data de nascimento, cidade da residência e telefones para contatos. Depois, marcar um dia para fazer a entrevista e teste de perfil profissional. A entrevista serve para conhecer as qualidades do profissional e o teste para classificação: modelo fotográfico ou passarela, se possui perfil publicitário ou fashion, além de orientar quais os cursos precisam ser feitos para seguir carreira.
AL: Existe site onde possamos ver o catálogo dos modelos e fotos do seu trabalho?
KC: Ainda não. Preciso atualizar o meu site. www.kicadecastro.webs.com .
AL: Caso a pessoa queira contratar uma sessão de fotos com você, como fazer? Qual o valor médio da sessão?
KC: A pessoa precisa entrar em contato e definir qual o objetivo. Depois disso, passo o orçamento. Não existe uma tabela fixa. O orçamento é passado, de forma justa, dentro do que o cliente solicita. Muitas pessoas querem apenas um registro pessoal. Nesse caso, elas não solicitam a presença da minha maquiadora e nem produção de figurino. Quando a questão é querer seguir carreira, precisa pensar em todos os detalhes. Nesse caso, preciso de uma maquiagem mais detalhada e de uma boa produção de figurino. Afinal, precisa estar lutando por oportunidade de igual para igual. As regras no mundo fashion são bem rígidas. O modelo precisa estar ciente delas para ter uma postura profissional. Dessa forma, as fotos são materiais de trabalho, e servem para abrir portas.
AL: Qual o grande diferencial do seu trabalho?
KC: Tenho o maior orgulho de falar que o resultado das fotos não tem a intervenção de computação gráfica. As pessoas são bonitas em sua diversidade. Tenho cuidado em escolher cenário, luz, figurino e maquiagem. Com isso, o resultado é verdadeiro; não crio uma beleza, apenas registro o que esta na minha frente: a beleza da pessoa com deficiência. Outro ponto é que os aparelhos ortopédicos são acessórios de moda em minhas fotografias.
AL: Já tive a oportunidade de verificar seu trabalho e adorei! Tanto é que pretendo fazer uma sessão no futuro. De onde vem a inspiração para um olhar tão sensível?
KC: Grata pelas palavras. Bom saber que tem pessoas que incentivam o trabalho. Vou ter o maior prazer em fazer as suas fotos. Procuro sempre ser criativa. Em cada registro, estudo muito os movimentos de cada modelo antes de cada foto Por isso, é importante, antes de qualquer coisa, uma entrevista pessoal para conhecer o perfil. Conhecendo a individualidade, procuro nas fotos mostrar a personalidade de cada um.
AL: Imagino que aprenda sempre em seu trabalho. Deve ser um trabalho bem gratificante e, não necessariamente, muito rentável. Digo isso por experiência própria. Basta vermos a discrepância entre os salários pagos às pessoas com deficiência e pessoas ditas ‘normais’. Um bom exemplo são os atletas paraolímpicos. Com certeza, o Cielo ganha muito mais que o Daniel Dias! Do que mais gosta em seu trabalho? Quais experiências mais marcantes tirou dele?
KC: Aprendi a reclamar menos da vida e a agradecer cada dia às mínimas conquistas. Ainda não é possível viver com os resultados da agência; assim como as modelos, que precisam ter outra profissão, tenho que dividir o meu tempo entre cuidar da agência e fazer registros fotográficos de eventos sociais, principalmente casamento, e eventos corporativos. No exemplo que você mencionou, dos atletas, outro ponto que não pode ficar de lado, são os cachês publicitários que os mesmos recebem. Atletas sem deficiência têm muito mais destaque na publicidade e maior número de patrocinadores. Amo fotografar, principalmente pessoas. Ver que a pessoa confia no meu trabalho, isso é muito gratificante. Quando faço parte da história, que tenho a responsabilidade de eternizar momentos marcantes da vida, isso não tem preço. Os momentos mais marcantes, dentro da agência, foram os casamentos que fiz de minhas modelos, que junta todas as emoções: o amor de fotografar e a felicidade de cada pessoa eternizada num click.
AL: Como você definiria Kica de Castro?
KC: Determinada, ética e focada nos objetivos. Faço muita pesquisa e sempre procuro atualizar os meus conhecimentos profissionais.
AL: Qual mensagem deixaria para os leitores da Rede Saci?
KC: O primeiro passo é querer realizar os sonhos. Depois estar certo que é uma profissão a seguir. Tendo isso definido, se entregue de corpo e alma nessa paixão. Tudo que é feito, precisa de dedicação e amor, pois assim, é possível encarar os desafios de ser um modelo profissional com deficiência. O empenho aumenta e os resultados positivos começam aparecer. Superar as barreiras do preconceito, nesse mercado de trabalho, requer muita disciplina, esforços, cursos profissionalizantes e convicção que esse é o caminho certo. Um bom profissional, seja em qualquer área, precisa ter foco nos objetivos. Essa não é uma carreira fácil, mas possível de acontecer. Não sonhe com a fama, sem antes sonhar com suas etapas. A verdade tem que estar presente; aprenda a escutar e observar o que esta acontecendo com os profissionais de sucesso.
Agradeço à Kica pela oportunidade e reforço meu convite para que façamos um caça talentos aqui em Belo Horizonte.
Contato:
Kica de Castro
kicadecastro@gmail.com.
Fonte: Rede SACI
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O design de moda inclusivo para cadeirante deve contar com tecidos mais leves e fechos em lugares variados para facilitar a independência do noivo na hora de se vestir. O traje de casamento deve respeitar as limitações do noivo, prezando o conforto e não esquecendo da beleza.
