Em seu texto, Adriana Lage descreve situações complicadas pelas quais passou em shoppings lotados no período natalino. Além disso, deseja Boas Festas aos leitores.
Adriana Lage.
Final de ano é sempre uma correria. São várias comemorações: festa do trabalho, festas familiares, aniversário (exagerei e fiz três comemorações), amigo oculto… Tinha me prometido que não iria a nenhum shopping em dezembro. Por isso mesmo, me adiantei e comprei antecipadamente todos os presentes que podia. Infelizmente, não cumpri o prometido. Graças a um pequeno período de inferno astral, tive que procurar ajuda médica para tratar de um leve estiramento no braço – conduta médica tenebrosa que dividirei com vocês nos próximos textos – e a um tratamento na unha do dedão do pé. Acabei passeando em dois shoppings de Belo Horizonte. Estavam lotados e olha que eram os primeiros dias de dezembro. Nunca vi povo tão mal educado! Colecionei bolsadas e cotoveladas na cabeça, vários esbarrões na minha cadeira e passei por situações que me fizeram ser a Adriana mais light desse mundo. Vamos a algumas delas:
Situação 1: Lojas de Brinquedos.
Como sou uma pessoa que adora presentear as pessoas que gosto, sempre compro algum regalo para meus priminhos, afilhada, cachorrinhas e, por que não, alguma palhaçada para amigos. Em épocas normais, já acho complicada a locomoção de um cadeirante em uma loja de brinquedos. Pelo menos aqui em BH. Nunca vi a necessidade que os proprietários possuem de colocar os produtos espalhados em corredores estreitos e, muitas vezes, inacessíveis para cadeirantes. Tenho evitado ir de cadeira motorizada a essas lojas e a todas que são apertadas. Certa vez, trombei numa pilha de caixas de brinquedo que só não se esborracharam graças à intervenção milagrosa da minha irmã. Às vezes, é tanta falta de educação dos clientes, descaso dos vendedores e completa invisibilidade, que dá vontade de atropelar tudo. Rsrsrs. Aproveitei para comprar alguns brinquedos para uma gincana do banco onde o objetivo é arrecadar o maior número de brinquedos possíveis para crianças carentes. Quando encontrei um corredor cheio de maquiagens infantis, bonecas e carrinhos legais e com preços acessíveis, tive que pedir ajuda a minha mãe. Fui virar a cadeira e acabei trombando em uma mochila. Meu pé se agarrou em uma boneca no chão. Foi um caos. Desisti de procurar pelos presentes e, vendo minha dificuldade, a gerente da loja solicitou a uma funcionária que me atendesse. Foi legal, mas devo dizer que compraria o dobro se tivesse conseguido me movimentar sozinha pela loja. Na hora de ir ao caixa, quase teve um barraco. O corredor era tão estreito que não cabia a cadeira de rodas. Pedi a minha irmã que pagasse para mim. Uma senhora que estava na fila olhou com cara feia pra ela. Assim que percebeu, a vendedora comentou que eu era cliente preferencial. A mulher ficou toda sem graça quando me enxergou.
Gostaria de saber como sobreviver em lojas apertadas? Se alguém souber, me digam por favor.
Situação 2: Visita ao Podólogo.
Já que minha unha do dedão resolveu chamar atenção e não queria (nem poderia) faltar ao trabalho, agendei uma avaliação com o podólogo num estabelecimento comercial grande e famoso, especializado em pés, e com lojas espalhadas por toda cidade. Os boxes não são adaptados para cadeirantes. A podóloga me atendeu no Box mais amplo; mesmo assim, a cadeira de rodas fechou o caminho. Acabei tumultuando o trânsito local. Para resolver meu problema, tive que me transferir da cadeira de rodas para a poltrona. Tudo bem desconfortável devido ao aperto. Quando esse povo vai aprender que cadeirante também vai ao podólogo, faz massagem e faz unha?
Situação 3: Desrespeito no banheiro adaptado.
Sempre vejo pessoas sem nenhuma deficiência utilizando os banheiros adaptados. Em dias de shopping cheio, esse fato se agrava. Fiquei na fila de um dos banheiros adaptados. Na porta, estava um rapaz segurando uma bolsa feminina. Logo pensei: deve ser alguém sem deficiência. O sorriso sem graça do menino condenava. Minha irmã comentou que apostava comigo que a pessoa com deficiência que estava lá dentro sairia toda saltitante e que deveria ter como deficiência a dificuldade em não saber respeitar o direito do outro. O menino ficou vermelho. Assim que a menina abriu a porta, o menino disparou a rir e ela saiu correndo de cabeça baixa. Minha irmã tinha acertado na mosca! O banheiro estava um caos. Comentei com a faxineira que me disse que fica indignada com isso, mas que a direção do shopping não faz nada. O banheiro adaptado fica bem antes dos outros banheiros. Aí, vale a lei do menor esforço…
Situação 4: Pés de mesa X cadeira de rodas.
Adoro conhecer restaurantes novos. Um problema recorrente pra mim é a incompatibilidade entre os pés da maioria das mesas e minhas cadeiras de rodas. Não tem jeito. Raramente, entramos em acordo. Por exemplo, passei aperto num restaurante de massas. Tinha nadado muito. Os braços estavam bem fadigados e caindo a qualquer esforço. Resolvi pedir uma porção de espaguette à parisiense. Só que o molho estava bem líquido. Como estava distante da mesa e meus braços não colaboravam, demorei demais pra almoçar. Acabei sujando o guardanapo todo… Os donos de restaurantes e bares deveriam se lembrar dos cadeirantes. Afinal de contas, onde fica o desenho universal?
Situação 5: Caixa Preferencial.
Sempre que posso, evito utilizar o caixa preferencial. Pelo menos pros meus lados, nunca vi tanto idoso mal educado e desesperado para ser o primeiro da fila. Constantemente ouço a brilhante frase: “Já que está sentada, pode esperar a fila sem problemas”. Normalmente, se a pessoa que está atrás na fila possui menos produtos que eu, sempre cedo meu lugar. Mas quando ouço essa frase desaforada, sempre viro onça. É a senha pra ‘mula’ empacar e não abdicar do seu direito. Algumas pessoas se esquecem que o caixa é preferencial, mas que, dentro dele, vale a ordem de chegada! E a cara de pau das mães que colocam crianças grandes no colo, isso quando não pegam alguma emprestada, só pra furarem fila? Cansei de ver caixa deixando passar só pra evitar confusão!
Outro detalhe que costuma me tirar do sério é a existência de caixas preferenciais mais baixos, mas que vivem inoperantes. Costumo perguntar, educadamente, se eles são apenas enfeite! Os funcionários costumam ficar sem graça e, nem por isso, a situação se altera.
Essas são apenas algumas situações recorrentes na vida de uma cadeirante e que costumam se agravar nessa época tumultuada de final de ano.
Como 2011 já está terminando e este deve ser meu último texto do ano, gostaria de desejar um Feliz Natal e um 2012 espetacular e pleno para todos os meus leitores, amigos e familiares. O ano que se finda foi bacana, cheio de surpresas, muitas lágrimas e sucesso. Comecei mal ganhando um cálculo renal em janeiro. Tive meus dias de cão com uma história de amor complicada e de final infeliz, mas que me trouxe um crescimento pessoal e muito aprendizado. Descobri que, por mais que seja legal compartilhar experiências, nem tudo deve ser escancarado pro mundo. Por causa dos meus devaneios amorosos publicados na internet, fui vítima de falsidade ideológica com a criação de um suposto email meu no hotmail. Só não levei esse caso adiante porque aprendi, desde cedo, que não devemos nos nivelar a pessoas pobres de espírito. Recebi um email que dizia que os ratos têm medo de altura. Acho que é por aí mesmo. Melhor alçar voo e deixá-los pra trás fazendo barulho lá em baixo. Vale lembrar que falsidade ideológica é crime! Dá, por exemplo, prestação de serviços comunitários e abre precedentes para um processo de danos morais. É, esse meu ano foi bem cinzento no campo amoroso. Em compensação, concluí minha pós graduação, ganhei outra medalha de ouro na etapa regional dos Circuitos Caixa Brasil Paraolímpico, conheci muita gente legal e estreitei meus laços com a Rede Saci. Desde o final de maio, tenho escrito um texto por semana. Aproveito para agradecer a oportunidade que a Rede Saci tem me dado de compartilhar minhas experiências com pessoas de todos os lugares. Deixo um abraço especial ao Leo, que não está mais na Saci, mas foi quem me deu a ideia de escrever semanalmente, à Lia e ao Luiz que sempre publicam meus textos e me socorrem quando a bancária tem dificuldades (vocês são uma gracinha!) e à Jaque e a Ana que ainda não tive contato. Agradeço também ao casal fantástico de ‘Beozonte’ Telma e Gil, que possuem o blog BHLegal e sempre divulgam meus textos. Acabamos nos conhecendo pessoalmente no meu aniversário e, com certeza, ainda teremos várias oportunidades de tricotar e comer pão de queijo.
Já estou preparando alguns textos para o próximo ano… Aguardem! Boas Festas e que o próximo ano seja bem mais colorido e festivo pra todos nós.
Fonte: Rede Saci
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