
Adriana Lage.
Sempre que minha mãe tem uma de suas graves crises de coluna, minha vida vira de ponta à cabeça em segundos. Acabo lidando bem com minha deficiência, mas tem horas em que depender dos outros pesa demais. Sempre ouço que Deus nunca nos dá uma cruz maior do que aquela que podemos carregar. Mas, em alguns momentos da vida, faz tanta falta que a cruz viesse com rodinhas!
Não é nada legal saber que dependerei sempre de alguém para realizar coisas básicas do dia a dia como, por exemplo, ir ao banheiro, trocar de roupa, me levantar da cama… Sempre procurei minha independência. Atualmente, já consegui a independência financeira, só que a física independe de mim. Passo horas nadando e fazendo fisioterapia durante a semana. Só me dou folga às sextas e domingos. Pena que minha lesão medular não me permita ganhar força de jeito nenhum. A única alternativa que me resta é ir fazendo a manutenção do corpo e da mente, tentando extrair o máximo do pouco que tenho.
Na medida em que o tempo vai passando, vai se afunilando meu dilema sobre a contratação de um cuidador. Já penso nisso há uns três anos, mas minha mãe possui muita resistência à ideia. Infelizmente, as crises dela estão ocorrendo em uma frequência cada vez maior e não conseguirei arrastar essa angústia por muito tempo. Já estou providenciando a ajuda de um terapeuta para fazer essa transição de forma mais suave, evitando meu jeito meio trator de ser. Vou ter que reestruturar minhas finanças, mas será por um bom motivo. A vida deveria vir com uma manual de instruções ensinando como lidar bem com o envelhecimento dos pais. Quem me dera que eles fossem eternos. É difícil lidar com isso: ver que nossos super-heróis, com o passar dos anos, vão ficando mais fracos, um cadinho esquecidos, cheios de limitações…
Eu sou o tipo da pessoa ansiosa que não gosta de protelar a causa da angústia. Quando existe algo me incomodando, tento resolver esse problema o mais rápido possível. Infelizmente, o que tenho visto nos últimos tempos, são pessoas cada vez mais egoístas. Não se pode contar com uma ajuda garantida. A maioria das pessoas se preocupa, única e exclusivamente, com sua vida e seus interesses pessoais. Estão na linha do “nossa! Vocês viram o fulano? Aconteceu isso e isso na vida dele. Que chato!”. E pergunto a vocês se fazem algo para ajudar o fulano? Claro que não! Ele que se vire e se desdobre para cuidar da sua vida, afinal de contas, para que perder “nosso” precioso tempo com os problemas dos outros?! Uma conversa sobre as obras da casa nova com o engenheiro, uma planilha que a chefe pediu, a compra de uma roupa, são sempre mais relevantes que uma conversa. Sou do tipo que tem certeza da importância que cinco minutos de conversa fazem na vida de uma pessoa triste ou desanimada. Um simples oi e um cadinho de atenção são capazes de transformar vidas. Mudam, totalmente, o rumo do dia das pessoas envolvidas.
Tenho chegado à conclusão que ser boazinha demais não anda valendo a pena nos dias de hoje. Essa postura tem me trazido mais ônus do que bônus. Por exemplo, toda família tem seus problemas. A minha é pequena e não acho legal vivermos com falsidade, leva e traz, rendendo coisinhas que podem ser resolvidas em uma simples conversa. Só que para tanto, é preciso encarar a verdade dos fatos, ter atitude para emitir opiniões e arcar com as consequências delas. Acho que, muitas vezes, complicamos demais a vida sem necessidade. E, com isso, nos esquecemos de dar valor ao que realmente nos interessa: a graça de estar vivo, de sentir e poder dar amor, a família, os amigos, os amores… Posso ter inúmeros defeitos, mas tenho atitude. Não costumo ficar em cima do muro só para evitar pequenas contrariedades. Acho que a vida pede de nós coragem e atitude. Tendo verdadeiro horror a pessoas frouxas e tenho procurado varrê-las da minha vida.
Hoje, tenho certeza que a força precisa vir de dentro, de nós mesmos. Não podemos esperar pelos outros. Se a ajuda vier, ótimo! Vai nos surpreender e trazer felicidade. Mas, se não vier, não ficaremos tão frustrados. Em tempos de pessoas falsas, egoístas, de juras de amor eterno dissolvidas em míseros dias, nada melhor do que confiar em si mesmo e cultivar a resiliência.
São nos momentos de crise e desânimo que descobrimos nossa força. Particularmente, tenho me sentido muito forte nesse início de ano. Desafios não andam faltando, bem como frustrações e decepções. Mas em épocas assim, nada melhor do que se lembrar de tudo o que conquistei e ter confiança de que ainda irei muito longe. Os momentos ruins fazem parte da nossa história e sempre nos trazem aprendizado e crescimento. Querendo ou não, as fases passam e a vida continua. Sempre é bom lembrar que “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si,
Carrega o dom de ser capaz. E ser feliz.”.
Fonte Rede SACI![]()


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