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Outros causos de uma mineirinha cadeirante.

Publicado em: 15 de junho de 2011 às 19:28.

Em artigo, Adriana Lage comenta as suas atividades nesse período de variações climáticas.

Adriana Lage

Achei muito interessante um artigo que li, no blog Ser LesadoSite externo., no qual Leandro Portella citava o caso de uma amiga gaúcha que queria ser adotada por alguma família carioca durante o inverno. Realmente, o frio complica bastante a vida de quem tem uma lesão medular. Segundo Leandro Portella, “nós lesados sempre sofremos com as mudanças de tempo e com a chegada do inverno, pois em um ambiente frio, o organismo não é capaz de obter as mensagens do cérebro que o corpo está esfriando, e exposto ao frio, a pessoa irá em breve tornar-se hipotérmica (temperatura abaixo de 35°C), terá aumento dos espasmos, dores nos membros e fadiga muscular”. Estou custando a dar conta do frio que anda fazendo aqui em BH. A temperatura anda variando de 11º a 25º. Nada muito crítico para quem mora no sul, está acostumado com o friozinho do sul de Minas ou São Paulo. Mas, pra mim, falta pouco pra me congelar! Ao contrário da Carlena, que busca uma família adotiva no sudeste, eu optaria por uma família nordestina ou que vivesse bem próxima à linha do Equador.

Mesmo em piscina aquecida, nesse frio, está difícil nadar. O vento piora bastante a sensação térmica. Por exemplo, na terça-feira passada, nadei, à noite, em piscina aberta. Após nadar 50m costas, meu técnico me pediu pra nadar 50m peito. Só assim mesmo pra esquentar o corpo e não congelar dentro da piscina. Tive que me concentrar e deixar de ser medrosa. Quando nado peito, no frio, meu corpo costuma ganhar vida própria. As mãos começam a fechar e não respondem aos meus comandos cerebrais. Fica fácil me afogar. Sair da piscina é a pior parte! Mesmo tomando banho quente, secando os cabelos e colocando uma roupa quentinha, gasto cerca de 1h para parar de tremer e sentir frio. Apesar de tudo, a sensação de nadar é única e vale a pena mesmo nessas épocas geladas. Alguns clientes da academia ficam admirados quando me veem nadando no frio. É como brinco com minha mãe: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho como. Não tenho muita escolha. O corpo precisa de movimento.

Minha fisioterapeuta morre de rir dizendo que sou do contra. Enquanto no frio, a maioria das pessoas, fica com os músculos mais rígidos, os meus amolecem. Minhas pernas esticam muito mais nesse período. Após um ano juntas, ela está concordando com o que minha mãe sempre disse: “Essa menina só pode ser um E.T.!”

Nesse final de semana, já que meu romance está em stand-by (ainda morro disso!), acabei ficando por conta da minha monografia de pós-graduação. Foi muito romântico passar o dia dos namorados em meio a livros e artigos sobre empregabilidade de pessoas com deficiência! Resultado: o professor leu e aprovou o conteúdo. Mas, me esqueci completamente que meus músculos fadigam rapidamente e abusei da digitação. Com isso, comecei a semana com os braços pesados e custando a fazer o básico: pentear cabelo, vestir blusa, passar batom… A Ana, minha fisioterapeuta, me indicou vários alongamentos e me recomendou usar bastante água morna nos braços durante o banho. Assim, a musculatura ficará mais relaxada. Infelizmente, hoje estou sem condições técnicas para nadar. Serei obrigada a matar aula pra evitar afogamentos.

Por falar em natação, até hoje ainda estou recebendo parabéns pela conquista da minha medalha de ouro. Sai em uma matéria no jornal da intranet do banco em que trabalho. Foi engraçada demais a repercussão. Pessoas, de todos os cantos do país, mexeram comigo. Recebi até um elogio do meu chefão de Brasília. O que mais me surpreendeu foi receber os parabéns e incentivo da Fabiana Sugimori. Totalmente inesperado! Muito antes em sonhar em entrar numa piscina, já era fã dela. Pena que ela abandonou a natação. Nadava muito e, com certeza, deixou saudades na seleção paraolímpica. Acho bem legal a reação das pessoas ‘normais’ quando veem alguém com deficiência superando seus limites. Sei lá, parece que despertam pra vida. Passam a dar mais valor às pequenas coisas.

Sempre fui fã do Almodóvar. Adoro o fato de seus heróis e mocinhas serem sempre fora dos padrões. Pois bem, nas últimas três semanas, tive meus dias de mulheres à beira de um ataque de nervos. Foram tantas emoções… A tensão da competição, coração partido, monografia e trabalhos da pós, final das férias, comemorações pós-medalha… Acabei descuidando um pouco da cabeça e deixando a ansiedade tomar conta. Com isso, minha pressão arterial subiu horrores. Levei muito puxão de orelha da fisioterapeuta, do meu técnico e da minha mãe. Não podemos mesmo descuidar da cabeça. Se ela não estiver em ordem, o resto todo desanda. Mas, sem sombra de dúvidas, o que mais pesou foi o coração partido. É muito ruim ver seus sonhos, que pareciam tão passíveis de realização, irem pro espaço num piscar de olhos. Mil vezes entrar numa piscina pra competir, resolver cálculos de integrais complexas, criar programas computacionais do que entender os caminhos tortuosos do amor.

Fonte: Rede SaciSite externo.

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Postado por: Gilberto Porta
Arquivado na categoria: Adriana Lage.
Assuntos relacionados: o mundo da deficiência.
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