Em artigo, Adriana Lage retoma os problemas e as situações decorrentes de ajudas bem-intencionadas porém mal-calculadas na vida dos cadeirantes
Adriana Lage
No ano passado, escrevi um texto sobre as ajudas atrapalhadas que nós, cadeirantes, recebemos. São coisas inevitáveis para quem depende de auxílio para realizar algumas atividades do dia a dia. Felizmente, na maioria das vezes, os acidentes são de pequeno porte. O ideal é transformar, com educação e bom humor, os imprevistos em aprendizado e boas risadas. Geralmente, o ajudante que passa por uma situação complicada, sempre terá mais cuidado na próxima vez em que for ajudar alguma pessoa com deficiência. Mas, não se iludam! O raio poderá cair novamente no mesmo lugar…
Um dia desses, estava almoçando quando meu pai contou um caso sobre um cadeirante que ele havia ajudado há tempos atrás. Na época, a frota de ônibus de BH não possuía elevadores ou piso baixo. Ele e outros 2 homens subiram o cadeirante, gordinho, pelas escadas do ônibus. Segundo ele, o cadeirante começou a xingar falando que estavam fazendo tudo errado e que ele iria cair. Essa situação deixou meu pai indignado, pois, foi fazer um favor e acabou sendo xingado. Comentei que, nem sempre, a ajuda é feita da melhor maneira para o cadeirante. Segundo minha irmã mais velha, baixou a militante da classe PCD em mim e fiz uma palestra sobre o assunto. Isso me fez relembrar outras ajudas atrapalhadas que compartilharei com vocês.
Desde que operou 2 hérnias, no ano passado, meu pai está ‘proibido’ de me carregar. Com isso, para conseguir entrar/sair do carro, no trabalho, conto com a ajuda dos seguranças do banco e dos meus colegas/amigos. Um dos meus chefes, figura maravilhosa e engraçadíssima, fez questão de espalhar para todos os funcionários do setor (mais de 120 pessoas) que preciso de ajuda e que não tenho frescuras. Quem quiser e puder, pode passar a mão na minha cadeira de rodas e me ajudar a subir rampas, andar distâncias moderadas, descer degraus, etc. Ele espalhou para todos da unidade que “preciso de homens”. Atualmente, as coisas andam ótimas. Normalmente, são os 2 seguranças que me carregam mesmo. Já estamos acostumados uns com os outros e, raramente, temos algum acidente de percurso. Mas, como a Lei de Murphy não falha, constantemente sou carregada por algum colega de trabalho. Alguns já sabem direitinho o que e como fazer. Já outros… Tenho um colega que me carregou há uns 4 meses. Não sei o que aconteceu ao certo, mas, quando percebi, ele se desequilibrou e caímos deitados no banco do carro. Foi uma cena linda, totalmente romântica! Eu, descabelada e agarrada ao pescoço dele. Ele, por sua vez, vermelho de tanta vergonha, esticado em cima de mim. Nesse dia, morri de dó do meu colega. Falei com ele que estava tudo bem, que não tinha problema, que essas coisas sempre acontecem… Mas não teve jeito. Desde então, ele evita mexer comigo. Ainda tem vergonha do ocorrido. Outro problema ocorre quando algum braçal vai me ajudar. Tem um deles que, acostumado a carregar mesas e armários, sempre me arremessa dentro do carro. Acabo me sentindo um saco de batatas. Costumo ficar pendurada no banco; sempre meu pai precisa me resgatar. Uma colega de trabalho, muito palhaça, cismou que fico tirando casquinha de um dos seguranças. O homem ficou branco de vergonha e me disse que fiquei vermelha com o comentário. Para completar, essa colega ainda propôs uma greve das outras mulheres do setor. Todas querem ser carregadas pelos funcionários bonitos – espécie cada vez mais rara no setor! Justiça seja feita, minha mãe sempre me chama de carrapato. Independente de ser homem ou mulher, bonito ou feio, velho ou novo, sempre agarro o pescoço com medo de cair! É inconsciente!
Quando participei do curso de formação dos motoristas dos táxis acessíveis, em 2009, na BHTRANS, achei interessante o fato de alguns motoristas alegarem que não oferecem ajuda, sobretudo para carregar a pessoa, pois não gostariam que suas filhas, irmãs e esposas fossem carregadas por estranhos. Essa é uma decisão pessoal mesmo. Por exemplo, um taxista que sempre me atende, não me carrega de jeito nenhum. Ele é evangélico e sua mulher é muito ciumenta. Acho que isso vai da pessoa. Tem gente que tira casquinha mesmo, mas, felizmente, a maioria das pessoas é séria nesse ponto. Ajudam de coração aberto, sem segundas intenções. Ontem, após sair de um show, o motorista de táxi se ofereceu para me carregar – para evitar estresse de ter minha viagem recusada e ser obrigada a denunciar taxista junto à BHTRANS, liguei para uma cooperativa e solicitei um táxi que coubesse uma cadeira de rodas. Entre o carro e o passeio, existiam uma poça d’água e um degrau enorme. Fiquei com dó da coluna da minha mãe e aceitei a ajuda. Sei lá o que o homem arrumou que meu vestido subiu todo e meus sapatos voaram na rua. O homem ficou todo sem graça, e eu também!! Fiz um strip gratuito na rua! Não satisfeito, ele catou meus sapatos e ainda os calçou em mim. Quando cheguei em casa, ele me disse: “pronta para me dar mais um abraço?”. Dessa vez, o carregamento foi perfeito! Mas foi inevitável pensar na minha irmã mais velha. Se estivesse comigo, com certeza me xingaria dizendo que não era preciso tanta intimidade com o taxista.
Acabei voltando à casa de shows muito antes do previsto. O banco em que trabalho fez aniversário e está dando de presente para seus funcionários, 2 ingressos para um show da Daniela Mercury, Paula Lima, Elba Ramalho e Margareth Menezes. O show é ótimo. Elas cantam apenas músicas do Chico Buarque. Fiquei encantada com os modelitos das quatro. Muito brilho, rendas, veludo… E que vozes! Arrasaram… As quatro são poderosíssimas e muito simpáticas. Até então, só tinha tido a oportunidade de assistir a Paula Lima em uma participação que fez no show do Vander Lee há tempos atrás. No final do show, ganhei um beijo da Margareth. Ri demais, pois minha irmã caçula vive me dizendo que a Margareth é meu futuro, ainda mais se continuar nadando no sol… Quando cheguei ao cercadinho dos cadeirantes, no canto esquerdo do palco, um dos seguranças fez sinal para outro vir me ajudar. Quando olhei, o cidadão queria descer a rampa segurando apenas o braço esquerdo da cadeira de rodas. Antes que acontecesse um acidente, minha mãe voltou a segurar a cadeira. O segurança foi extremamente simpático, mas não tinha a menor ideia de como se dirige uma cadeira de rodas! Ao sair do show, ele foi me levar até o elevador. Na nossa frente, estava uma moça usando um andador. Não acreditei quando o segurança trombou a cadeira de rodas no andador da menina. Em seguida, bateu novamente a cadeira no pé da moça, arrancando sangue. Por sorte, a menina não caiu! Comecei a frear a cadeira para que a cena não se repetisse. Uma das coisas que mais me incomodam nessa casa de shows é o local reservado para pessoas com deficiência. Além de não enxergarmos quase nada, nosso pescoço sofre! Estou toda dolorida…
Uma das ajudas mais atrapalhadas que recebi em toda a minha vida, foi a de um salva-vidas, em 2009, em Brasília. Era minha estreia em competições paraolímpicas. Queria fazer bonito para minha família e meu técnico. Bastava completar a prova que ganharia medalha de bronze. No dia anterior, tinha abandonado a prova dos 50m costas por causa de um princípio de hipotermia. Estava muito nervosa. Queria nadar costas, mas não consegui. Meu técnico me orientou nadar peito, mas que nunca deixasse minha reserva de ar se esgotar para me virar de barriga pra cima e respirar. É horrível a sensação que você está atrasando a competição, que é a única pessoa nadando e os outros estão a sua espera. Mesmo assim, acho que por causa da torcida, consegui me deslocar na piscina. Quando percebi, já estava embaixo das bandeirinhas. Faltava pouco pra completar a prova. Acabei me desconcentrando ao trombar meu bumbum na raia. Estava esgotada, mas devia isso a meu técnico, irmãs e mãe. Deixei para me virar para respirar no limite. Infelizmente, o cansaço misturado ao stress me impediu de me virar sozinha. Comecei a me afogar. Como estava ficando sem ar e não tinha nenhuma reserva, comecei a engolir água. O salva-vidas pulou pra me salvar me fazendo engolir mais água. Quando pensei que estava salva, vi que ele estava parado do meu lado, sem saber o que fazer. Foi uma situação horrível. Entrei em pânico. Em milésimos de segundos, revi minha vida toda enquanto engolia mais água. Tentei cutucá-lo, mas não consegui. Felizmente, alguém gritou com ele e fui resgatada. Passei o resto do dia em alfa, totalmente desligada do mundo. Levei um sustão. Tanto que, no ano passado, não quis arriscar nadar peito. Fiquei com medo de me afogar novamente, ainda mais que, dessa vez, nadei na 3ª raia. Esses salva-vidas não são muito bem treinados para salvar nadadores de classes baixas.
Outro tipo de ajuda que me mata de medo é empurrar minha cadeira de rodas pelo encosto! Sempre perco o equilíbrio e tombo meu tronco para frente. E o pior é que ainda escuto frases como: “Ê mandioca! Jogaram sal na lesma! Fica esperta, Adriana!”
Nos casos em que a ajuda se trata de uma transferência da cadeira de rodas para outro local, combinei com minhas irmãs e minha prima o seguinte: sempre que eu quiser e achar conveniente ser carregada pela pessoa, digo uma senha. Elas detectam na hora! Assim, não temos problemas de comunicação! O único perigo é a pessoa achar que a cadeirante não bate bem da cabeça por soltar uma palavra nada a ver, totalmente fora do contexto.
Tenho um amigo que sempre me diz que somos pessoas com deficiência por algum motivo maior e que não devemos buscar explicações para isso. Ele sempre ressalta que Deus sabe o que faz e sempre nos protege. Mas, em todo caso, é sempre bom estar em dia com as orações e em sintonia com nosso anjo da guarda!
Fonte: Rede Saci![]()


