Mais um artigo de Adriana Lage sobre o cotidiano das pessoas com deficiência.
Adriana Lage
Depois de passar uma semana no paraíso ensolarado que é João Pessoa, foi difícil voltar pra casa, em Belo Horizonte, e dar de cara com o friozinho. Ri demais quando o comandante Farias, que estava pilotando o avião, alertou aos passageiros que desceriam na terra do queijo minas que tirassem seus casaquinhos amassados no interior da mala, pois a chapa tinha esfriado em Beozonte.
Ai que saudades do sol! Para quem tem lesão medular, o frio, em muitos casos, é um vilão. O cadeirante fica todo duro, com dores por todos os lados, com menos força… as pernas congelam. Não há meia ou calças que as façam esquentar… No meu caso, quanto mais roupas coloco, menos consigo me mexer. É por essas e outras que ando enrolando pra passear no Sul e também na Europa.
Frio, pra mim, combina com roupas fashions, um chocolate quente, lareira ou aquecedor e é ideal para se ficar agarradinho com seu amado(a). Só mesmo o calor humano pra incendiar nosso corpo, fazendo aquela corrente elétrica percorrer e aquecer nossos músculos e a alma. Mas, quando o ser amado mora longe, o jeito é apelar pro MSN mesmo!
Como tenho competição de natação na semana que vem, não ando podendo matar minhas aulas. Fui nadar na terça feira à noite e quase congelei!
Mesmo em piscina aquecida, o corpo ganhou vida própria. É estranho demais. As mãos vão ficando duras, não conseguem se fechar, muito menos obedecer aos comandos cerebrais, as pernas pulam sozinhas… É um caos! Mas, mesmo sendo atleta de final de semana, o esporte exige alguns sacrifícios. E, verdade seja dita, estava morrendo de saudades de dar umas braçadas. O pior de tudo é sair da piscina! O ventinho ártico nos congela. Mesmo tomando um banho e uma bebida quente e secando meus cabelos, só consigo parar de tremer depois de uma hora. Meu corpo demora pra voltar ao normal.
Cada dia que passa, tenho mais certeza que vou morar no nordeste. O clima de lá, mesmo no inverno, é quente. Prefiro o calor escaldante ao frio que me congela. Sol, pra mim, é sinônimo de vida! O calor me transmite alegria. Já o frio… Preciso segurar o pé pra não ficar uma chata resmungona…
Segundo minha neurologista do SARAH, o frio realmente me traz fadiga muscular. É uma época de economizar energia; Nada de grandes esforços ou estripulias. É época de cuidar melhor da alimentação também. Não tinha ideia que comer determinados alimentos também aumentasse a fadiga muscular. Por isso é que sempre brinco com meus amigos: ser deficiente é ter a oportunidade de vivenciar experiências únicas nessa vida! Sejam elas boas ou ruins, mas todas passíveis de aprendizado e crescimento.
Enquanto esses dias frios não passam, vou torcendo e pedindo aos deuses para que faça muito calor na semana que vem em Brasília. Não quero correr o risco de ter um princípio de hipotermia novamente.
Quero completar meius 50m costas e ganhar uma medalha. E, como diria Renato Russo, “mas é claro que o sol, vai voltar amanhã. Espera que o sol já vem…”
Fonte: Rede Saci ![]()


