Adriana Lage comenta as diversas manifestações de preconceito, em sua maioria velado, que permeiam a vida de uma pessoa com deficiência
Adriana Lage
Vivemos em um país onde as pessoas dizem que não são preconceituosas. Só que, na maioria dos casos, vivenciamos situações nas quais o preconceito é velado. Basta uma frase, um olhar, um sorriso sarcástico… Lá está ele, o preconceito, presente em nossas vidas.
Nos últimos dias, passei por algumas situações que me chamaram a atenção e me fizeram lembrar sobre o preconceito velado em relação às pessoas com deficiência:
- Em dezembro passado, comecei uma pós graduação em Gestão Empresarial. O curso é virtual e possui apenas 2 encontros presenciais realizados numa escola particular próxima à minha residência. Estudei nesse colégio até completar o ensino fundamental. Eles acompanharam todo o meu desenvolvimento. Os funcionários da escola sempre me carregaram para todos os lados. A escola nunca se preocupou em se tornar acessível, nem mesmo quando me tornei cadeirante. Não possui rampas ou elevadores. Muitos anos se passaram desde que sai de lá. Tivemos muitos avanços em relação à acessibilidade e a educação inclusiva. Logo, imaginei que a escola estivesse adaptada!! Doce ilusão… Fui obrigada a subir, carregada, um andar. Para quem não está sentado na cadeira de rodas, é fácil falar: “que isso! É só um andar!!” Mas a escada é estreita e faz curva. Resultado, quando faltavam 3 degraus, uma das pessoas que estava carregando a cadeira se desequilibrou e caiu sentada no chão. Pra minha sorte, a pessoa que estava na parte de trás, conseguiu segurar a cadeira… Quando perguntei à administração da escola sobre a acessibilidade, eles me responderam que não são obrigados a fazer isso, pois a escola é pequena. Pequena? A escola ocupa quase um quarteirão da rua. Tem 2 prédios grandes… E, cá entre nós, mesmo que fosse pequena, deveria ser adaptada! A funcionária também alegou que a chance de receber um aluna com dificuldade de locomoção é bem pequena não justificando o custo de uma reforma.
- Tenho corrido atrás de uma promoção no banco em que trabalho, visando trabalhar 6 horas por dia. Conciliar 8h de trabalho, fisioterapia, natação e pós graduação não tem sido nada fácil. E ainda preciso reservar um tempo pra vida social e para continuar conhecendo o paulistano fofo que anda virando minha cabeça. Ultimamente, tenho me deparado com o problema do ir/vir nos processos seletivos internos. Participei de uma entrevista em dezembro e fiquei surpresa com a indignação da gerente quando respondi que só teria disponibilidade para viajar caso pudesse levar um acompanhante. A mulher não concordou. Ela também não gostou quando disse que era tetraplégica e me questionou: se é tetraplégica, como consegue movimentar os braços? Eu me senti naqueles paredões de fuzilamento. Até me perguntar se eu conseguia carregar uma jarra de suco, ela perguntou. Sinceramente, não creio que a força física influenciasse no cargo de analista. Se estivesse tentando um cargo de copeira, tudo bem… Na semana passada, tentei outro concurso para consultor na área de segurança. Fiz a prova, mas, na hora da entrevista, fiquei de fora. Como um cadeirante conseguiria fiscalizar se o alarme da agência está funcionando corretamente, verificar se existe algum chupa cabra no autoaatendimento e visitar agências ainda não adaptadas? A responsável pelo processo seletivo me disse que não poderia me excluir do processo, mas que, realmente, as coisas seriam bem inviáveis. Continuei participando até onde foi possível, pois tudo serve de aprendizado. Infelizmente, alguns cargos ainda são incompatíveis com minha deficiência. Acredito que o banco no qual trabalho ainda precisa aprimorar sua gestão da diversidade no tocante aos funcionários com deficiência. Os gestores ainda ficam perdidos quando se deparam com um funcionário com deficiência. Por isso mesmo, estou fazendo minha monografia com esse tema e espero poder ajudar de alguma forma.
- Ontem, fui fazer mais uma sessão de depilação a laser próxima a um grande shopping de BH. A clínica não é adaptada, mas dá para sobreviver bem. Achei engraçado quando a fisioterapeuta que me atendeu falou que fica admirada com o fato de eu ter estudado, nadar, trabalhar e ainda contar casos amorosos. Só que pude perceber que, para ela, ainda falta mais conhecimento sobre o assunto, o que acaba gerando certo preconceito. Ela acha que pessoas com deficiência só possuem amigos e namorados com deficiência, como se vivêssemos em outro mundo. Ela me disse que sou a única cadeirante que conhece e que fica boba de ser vaidosa. Acho estranho um fisioterapeuta pensar assim…
- Quando sai da clínica de estética, resolvi almoçar no shopping – o mesmo no qual machuquei minha cabeça, no ano passado, ao descer alguns degraus. Na última vez que voltei, a pé, ao shopping, os degraus ainda estavam lá. Pedi ao segurança para abrir um portão lateral que evitaria a descida pelos degraus, mas ele não gostou. Só faltou me xingar. Realmente, fui um pouco chiliquenta… Mas é ruim demais descer degraus onde não cabe o pé da pessoa que está lhe ajudando. Após uns 3 minutos de indecisão, o segurança conseguiu me convencer que não me deixaria cair e acabei aceitando a ajuda. Para a minha felicidade, ontem, os degraus foram transformados em uma rampa provisória. A rampa ainda está íngreme e com cimento, mas já facilitou minha vida. Fui comprar uma rasteirinha e, na hora em que cheguei sozinha ao caixa, ri demais da reação da vendedora. Ela foi me vendo e perguntando: você veio sozinha ao shopping? Falei que estava com minha irmã e minha mãe, mas que o shopping é tranquilo e que não teria problemas em ir sozinha. A menina arregalou os olhos e me disse que era muito perigoso, que não deveria ficar andando sozinha por aí, ainda mais, sendo mulher. Poderia ser assaltada, sequestrada, estuprada… É aquela história: riscos, todo mundo corre, independente de ser deficiente ou não. Eu procuro fazer a minha parte e confiar em Deus, mas não fico pensando nessas coisas… Se não, a pessoa fica paranóica e nem sai de casa.
- Fui ao médico tratar de uma crise de sinusite no sábado. A médica, ao invés de conversar comigo, perguntava tudo para minha mãe. Era inconsciente! Ela começava a perguntar as coisas para a minha mãe e, depois que se lembrava que a paciente era eu, passava a conversar comigo. Ainda hoje, vejo muitos casos em que a pessoa conversa com o acompanhante ao invés de conversar com a pessoa com deficiência. Eu sempre falo “ô moço, pode conversar comigo!”. Outras vezes, minha irmã brinca dizendo que podem conversar comigo diretamente, pois não mordo!! E complementa dizendo que ando com as vacinas em dia…
- Cheguei à academia para nadar e, quando estava colocando minha touca e óculos, uma criança me parou com cara de espanto. Ela queria saber se eu iria nadar e como isso era possível. A menina começou a fazer inúmeras perguntas. Eu não ligo e respondi tudo. Ela faz natação e morre de preguiça de competir. Eu e o professor dela ficamos contando as vantagens de participar de uma competição, tentando incentivá-la. Quando a mãe dela percebeu, foi logo puxando a menina para longe de mim, me pedindo desculpas pelas perguntas e dando um puxão de orelhas na criança. As crianças são sempre curiosas e não são preconceituosas. Para mim, são os adultos que as tornam preconceituosas. Quanto mais conviverem com deficientes e virem que somos iguais a qualquer outra pessoa, menor a chance de crescerem preconceituosas. Ela ficou me observando de longe e só foi embora quando me viu atravessar a piscina nadando sozinha. Tenho certeza que, na próxima vez que nos encontrarmos, o papo vai continuar.
Enfim, situações como essas fazem parte do dia a dia de pessoas com deficiência. Há um tempo atrás, ficava chateada. Mas, hoje em dia, vejo que tudo isso é fruto da falta de conhecimento. As pessoas não fazem isso por mal. Casos assim acabam me rendendo grandes risadas!



Comentário feito por: Esther em 26 de fevereiro de 2012 às 12:29.
Perdao mais eu tenho falar, admiro vc serio, tava aqui fazendo o trabalho pra escola e é sobre vc mesmo q eu vo falar, tipo meu Deus q legal seu pensamento! (nao q precise de alguma opniao, só achei legal mesmo(: )
Comentário feito por: Edinalva em 23 de abril de 2012 às 10:41.
Gostei muito é o q estou procurando!
Comentário feito por: keila vitória em 15 de maio de 2012 às 11:03.
gostei