Adriana Lage conta a história de superação do cadeirante paraplégico Alessandro Ribeiro Fernandes, autor do Blog do Cadeirante, mostrando, mais uma vez, que a deficiência não é obstáculo quando se tem força de vontade e coragem para correr atrás da realização.
Adriana Lage.
O texto de hoje é sobre um mineirinho bem estiloso que conheci recentemente. Alessandro Ribeiro Fernandes, Sam para os íntimos, 38 anos, administrador de empresas com pós graduação em Gestão Estratégica na UFV e mestrando em Finanças na UFMG, é o tipo do cadeirante que, se cruzasse meu caminho, eu diria: “Meu Deus! O que é isso”?! Mas calma, meninas! O rapaz é muito bem comprometido… Além de belo, meu conterrâneo é um moço muito inteligente e vive ligado em 220 volts – não para quieto um segundo. Funcionário da Gasmig, de mudança para o BDMG, Alessandro ainda encontra tempo para dar aulas, escrever em seus dois blogs, andar de handbike, gandaiar, etc.
Ele se tornou paraplégico, em 24/07/2006, após um acidente de moto. Teve uma lesão raquimedular na vértebra T2. Para conhecê-lo melhor, fiz algumas perguntas ao moço. Ele me disse que parecia entrevista da Playboy. Não sei se isso é bom ou ruim, mas quero lembrá-los que sou uma analista de sistemas metida a jornalista! Vamos à entrevista com o Sam:
Adriana Lage: Li que se tornou deficiente após um acidente de moto. Poderia falar um pouco sobre o acidente e sua recuperação?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Meu acidente aconteceu nas férias do mestrado que fazia na UFSC em Florianópolis. Eu passava por Viçosa, peguei a moto de um amigo e fui para a universidade. Em uma reta, um trator atravessou na minha frente e na frenagem eu capotei e bati a cabeça, fraturando a coluna. A recuperação foi normal para um acidente destes, fiquei dois meses internado, depois um mês no Sarah, e fui tocar minha vida. Faço fisioterapia toda semana, e já recuperei movimentos e sensibilidade até a cintura.
Adriana Lage: A deficiência alterou muito a sua rotina? Por exemplo, li que não entrou em depressão, não teve ataques de choro, etc. Você teve que abrir mão de algum projeto por causa do acidente?
Alessandro Ribeiro Fernandes: A deficiência alterou drasticamente minha rotina: eu era esportista, baladeiro, etc e de repente, me vi preso a uma cama. Mas com o tempo voltei à rotina, a cadeira me libertou da cama, e hoje faço esportes, vou pra todo lado, mas tenho a limitação da cadeira em alguns lugares. Não abri mão de nenhum projeto, estou agora acabando o mestrado que precisei trancar e viajo para os lugares que já tinha vontade, trabalho com o que gosto, etc. Realmente não tive um dia sequer de tristeza ou depressão (nem sei como é).
Adriana Lage: Onde fez e faz acompanhamento médico?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Em BH, onde minha família morava (hoje todos se mudaram e eu fiquei), com neurologistas que atendiam pelo plano de saúde da época, até hoje, e pelo Hospital Sarah. Já passei por vários fisioterapeutas, a que me atende hoje é a Joyce (Aquafisiobh).
Adriana Lage: Quais são suas principais dificuldades no dia a dia?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Locomoção nas calçadas esburacadas de BH e acesso a alguns prédios com muitas escadas. O que mudou na verdade foi o planejamento, sempre procuro saber se há acesso onde vou. Se houver degraus e alguém para carregar, vou assim mesmo.
Adriana Lage: Você praticava esportes de aventura. Continua praticando?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Sim, ainda pratico. Minha grande paixão, a bicicleta, voltei a praticar. Já voei de parapente, nado, e o que mais dá na telha. Estou programando voltar a fazer trilha de bike, comprando uma handbike para terra.
Adriana Lage: Pra quem estava acostumado a fazer tudo o que queria e a ser independente, a deficiência modificou muita coisa em sua vida? Como lidou com a dependência inicial causada pela lesão? Quem te ajudou e ajuda?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Ainda faço tudo o que quero e sou independente: saio de casa sozinho, vou a bares, restaurantes, viajo, etc. A deficiência mudou apenas a forma de me locomover, agora preciso me planejar mais e escolher lugares mais acessíveis. Minha “namorida” me ajuda quando necessário; lidei bem com a dependência no início, sabia que precisaria de ajuda, mas fiz o possível para me virar e aprender a ser independente. O Sarah ajuda muito nesse quesito, ensina a se virar como cadeirante. Mas a gente aprende mesmo no dia a dia…
Adriana Lage: Tenho a impressão que é bem independente. Tem carro, handbike, namorada, trabalha, etc. Além disso, parece ter um poder aquisitivo mais alto. Sempre teve um padrão de vida mais elevado?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Nunca fui pobre, mas nem rico. Sou de família de classe média, que vem melhorando ao longo dos anos. Meus pais nunca deram moleza pra gente, sempre foram do tipo “formou, se vira”, mas sem deixar de apoiar nas necessidades. No início, me ajudaram, voltei a morar com eles, mas no ano seguinte ao acidente já passei em um concurso público (sem ser como deficiente, perdi o laudo médico) e me mudei com a namorada para um apartamento nosso (alugado). Meu padrão de vida hoje é resultado do meu investimento em educação e esforço em conseguir um bom emprego.
Adriana Lage: As tecnologias assistivas tem ajudado bastante as pessoas com deficiência. Quais delas você utiliza?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Todas quanto possíveis. Carro adaptado, com bluetooth, controles remotos para computador e outros aparelhos, e alguns outros. Minha cadeira é manual, mas leve (M3, monobloco, com rodas de fibra).
Adriana Lage: Como surgiu a ideia de criar os blogs? Fale mais sobre eles.
Alessandro Ribeiro Fernandes: Um amigo me deu a ideia, pois ele montou um para contar sobre o casamento dele. Achei que seria uma boa oportunidade para compartilhar com todos minhas experiências sobre rodas e ideias para viver melhor. Eles cresceram e se mostraram uma poderosa ferramenta para divulgar minhas conquistas e trocar ideias com outras pessoas na mesma situação.
Adriana Lage: Após o acidente, você modificou alguns valores e conceitos? Por exemplo, qual era sua visão sobre as pessoas com deficiência, acessibilidade, sobre a vida, etc antes e após o acidente?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Graças a Deus tive boa educação e valores desde novo, portanto sempre fui um cara sem preconceitos, sempre gostei muito de ajudar os outros, sem medir esforços para ajudar e dar oportunidade a qualquer um, deficiente ou não. Sempre fui paciente, tolerante, respeitoso e honesto em tudo, portanto o acidente serviu apenas para ampliar estas qualidades (não sou perfeito, mas como deve ter visto pelo blog, sempre fui, digamos, muito bacana). Sei que a vida é difícil, mas depende de nós para torná-la melhor e mais agradável. Com deficiência ou não. Engraçado, na minha visão, sou exatamente a mesma pessoa, só que me locomovo sobre rodas. Não consigo engolir essa questão de deficiência ser uma coisa tão sobrenatural, diferente, etc. As pessoas são o que são; suas atitudes que demonstram seu valor.
Adriana Lage: Você sofre ou já sofreu algum tipo de preconceito? Se sim, cite alguns.
Alessandro Ribeiro Fernandes: Já sofri preconceito sim. Não fui contratado por ser cadeirante em uma dinâmica, mesmo todos “votando” em mim para o cargo, e outras coisas pequenas no dia a dia, mas não dou muita importância para isso e sigo a vida.
Adriana Lage: Pelo o que pesquisei e já percebi, você parece ser todo engraçado, bem humorado, inteligente, etc… além de gatinho! (risos). Já teve alguma dificuldade para arrumar uma namorada?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Obrigado! Tive dificuldade para escolher! Quando sofri o acidente, estava na casa de uma ex-namorada, voltamos a namorar após o acidente, mas como ela morava em Viçosa e eu fiquei em BH, me envolvi com uma enfermeira do hospital, que era casada, mas estava se separando. Aí terminei com ela para ficar com a enfermeira, enquanto uma outra ex estava atrás de mim há um tempão. Quando percebi que essa ex gostava demais de mim, larguei a enfermeira e fiquei com essa ex, a Giordana, com quem estou até hoje. E ela é ciumenta! Felizmente, mudei e não sou mais mulherengo rsrs
Adriana Lage: Em relação a relacionamentos amorosos, você acredita que os cadeirantes e as cadeirantes passam pelos mesmos problemas? Eu acho que pra mulher as coisas ainda são bem piores!
Alessandro Ribeiro Fernandes: Sem dúvida para a mulher a coisa é pior, pois o homem é muito mais ligado à aparência do que a mulher (é preconceito mesmo) e a concorrência chega a ser desleal, pois as mulheres investem demais em beleza, valorizando-a, enquanto elas se interessam se o cara for muito bacana e a amar de verdade.
Adriana Lage: O que você acha da acessibilidade em nossa cidade? Quais pontos positivos destacaria? E os negativos?
Alessandro Ribeiro Fernandes: É razoável, mas tem muito a melhorar ainda. Há muitos lugares ruins, falta de padronização nas calçadas e falta de fiscalização das empresas públicas. Mas o pior para mim é a falta de bom senso dos proprietários de imóveis comerciais e residenciais, que não pensam na acessibilidade e nem uma rampa móvel providenciam, deixando um ou dois degraus que muito nos atrapalham. De positivo, tem o crescente número de prédios com acesso, felizmente mais pessoas estão começando a se conscientizar.
Adriana Lage: Quais são seus ídolos?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Meus pais.
Adriana Lage: O que costuma fazer nas horas vagas?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Adoro andar de handbike, sair à noite, ir a botecos, restaurantes, festas, ir a casa de amigos, gosto de jogar buraco, games, ver filmes, viajar…. bem, como vê, não paro quieto!
Adriana Lage: Provavelmente, sempre devem dizer que você é um exemplo de superação. Como lida com isso?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Dizem muito, e fico muito feliz com isso. Servir de exemplo é uma grande responsabilidade, mas faz muito bem, quer dizer que você está no caminho certo para ter uma vida plena e feliz.
Adriana Lage: Qual mensagem deixaria para os leitores?
Alessandro Ribeiro Fernandes: Jamais desistam de perseguir seus sonhos, parece clichê, mas tratando-se de deficiência, ela parece ser uma barreira que te distancia de tudo. Não a vejam assim, mas como um incentivo para mostrar a todos que é capaz, independente do obstáculo. Todos enfrentam obstáculos, não faça da deficiência mais um em sua vida.
Como podemos notar, esse mineirinho é uma daquelas pessoas que fazem diferença no mundo. Histórias como a do Sam sempre me servem de inspiração e mostram que a cadeira de rodas não nos limita pra nada. Os limites estão aí para serem superados. E, a cada superação, novos limites surgem para serem vencidos.
Não deixem de dar uma espiadinha nos blogs do rapaz. O blog do cadeirante traz muitas informações interessantes sobre acessibilidade, relacionamento, dicas, etc. Já o Lesado e Meio, traz informações engraçadas e úteis. Por exemplo, adorei os posts que indicam quais as vantagens de se namorar um cadeirante. Os posts sempre arrancam boas risadas dos leitores.
Deixo aqui meus agradecimentos ao moço lindo, reforçando meu convite para que possamos unir nossas forças e trabalhar em prol de uma Belo Horizonte mais acessível.
Blog do Cadeirante:
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Lesado e Meio:
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Fonte: Rede Saci![]()


