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Chove chuva, chove sem parar…

Publicado em: 10 de janeiro de 2012 às 12:26.

Adriana Lage comenta sobre as dificuldades enfrentadas pelos cadeirantes em dias chuvosos.

Adriana Lage

Para os mineiros, desde o mês de dezembro, anda impossível não pensar em chuva. Até durante a virada do ano, a chuva nos brindou para lavarmos a alma e nos desapegarmos de todas as coisas negativas e ruins do ano que ficou pra trás. Muitas cidades ainda estão em estado de emergência – já são mais de oitenta. Belo Horizonte está bem esburacada. Só no dia 02 de janeiro é que o sol resolveu nos dar o ar de sua graça. A população já estava ficando mofada!

Nesses dias, não há chapinha que resista. Para quem é cadeirante, fica quase impossível não se molhar. Cadeira de rodas e chuva são como cão e gato: não combinam de jeito nenhum. É preciso um arsenal de guerra para enfrentar São Pedro. Eu costumo sair de casa com uma capa de chuva e uma sombrinha gigante. Mesmo assim, ainda me molho. Em casos extremos, costumo colocar uma sacola plástica em cada pé no melhor estilo motoboy. Quando estive passeando pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em 2008, peguei uma chuva danada! Como voltaria pra casa à noite, resolvi encarar a chuva e conhecer aquele paraíso. Tratei logo de comprar uma blusa para abrandar o frio que estava sentindo e uma capa de chuva, empacotei a bolsa e a máquina fotográfica e ensaquei meus pés com duas sacolas plásticas! Fiquei uma verdadeira marmota. Nao tinha uma pessoa que passasse por mim e nao desse um sorriso. Mas valeu a pena! Aos poucos, a chuva foi diminuindo e pude tirar até algumas fotos com chuvisco.

Fico pensando nas dificuldades que a maioria dos cadeirantes brasileiros passa nesses dias chuvosos. Alguns já andam com uma roupa reserva na mochila e toalhas para se secarem. Outros acabam passando o dia molhados. Já pensaram o que é dividir o espaço das calçadas e ruas com aquele batalhão de carros e de pessoas com sombrinhas? Certa vez, fiz um curso de programação Delphi no centro de BH. Minha mãe parava o carro no estacionamento próximo ao prédio do curso e íamos andando até lá. Nessa época, ainda existiam camelôs pelas ruas da capital. Era um verdadeiro caos. Nunca levei tanta sombrinhada na cabeça, cotoveladas e empurrões…

Tenho uma amiga que anda penando com essa chuva. Vez ou outra, até que é possível ir/voltar do trabalho de táxi. Mas sai muito caro! O jeito é contar com a boa vontade de São Pedro e torcer para que a chuva esteja fininha quando se está no ponto de ônibus ou andando pelas ruas. Sem falar que ainda temos apenas um táxi acesível rodadando pela capital mineira.

E quando se usa cadeira motorizada? As coisas complicam um cadinho mais. O joy stick não pode molhar de jeito nenhum. Caso contrário, poderá ser danificado e a cadeira se descontrolar. O conserto não sai menos de R$600,00. Sempre que o dia está nublado, coloco uma sacola plástica na minha bolsa para empacotar o comando da cadeira em caso de chuva. Comprei uma sombrinha com suporte que dá para encaixar na cadeira de rodas. Assim, só molho minhas pernas/pés. Isso quando a vaidade fala mais alto e desisto de me empacotar toda!

Um problema que se agrava nesse período chuvoso são os buracos e alagamentos. Numa bela tarde de sábado, fui ao salão de beleza arrumar minhas madeixas. Não havia previsão de chuva. Quando já estava quase saindo, despencou uma chuva horrorosa. Esperei mais de 1 hora até que a chuva ficasse fininha para voltar pra casa. Abri a sombrinha e fui descendo a rua… de repente, me deparei com um alagamento enorme numa rua próxima à minha casa. O motorista que vinha em minha direção, felizmente, me viu e quase desligou o carro para atravessar o pequeno riacho sem me dar um banho de água vermelha. Fiquei com medo de atravessar o alagamento, mas não tinha outro caminho para chegar em casa e a chuva estava engrossando. Minha irmã, vendo meu medo e indecisão, tratou logo de dizer: “força na peruca e vamos simbora”. A água estava batendo na canela dela. Com isso, criei coragem e atravessei a poça. Hoje em dia, não dá pra arriscar ficar parada perto de pequenos alagamentos em BH. O Brasil todo já presenciou casos de mineiros ilhados em cima de carros quase sendo arrastados pela enxurrada. A água sobe numa velocidade tão incrível que não dá para bobear…

Hoje em dia, enquanto o sol não voltar a reinar absoluto em BH, não dá pra cadeirante fazer muita gracinha na rua. As ruas estão mais esburacadas do que nunca. Todo cuidado é pouco para se desviar dos obstáculos e manter nossa segurança ao transitar no asfalto.

Para conseguir ir a uma reunião no primeiro andar do banco em que trabalho, num dia de chuva, tivemos que montar um arsenal de guerra: um amigo desceu a rampa da garagem empurrando minha cadeira de rodas e outro veio com um guarda chuva gigante nos dando cobertura. Quando chegamos na escada que leva ao primeiro andar, foram necessários dois homens para carregar minha cadeira de rodas e outro para nos dar cobertura com o guarda chuva. Mesmo assim, todos acabaram molhando um pouco.

Como adoro um sol e calor, não vejo a hora dele voltar a reinar por aqui. É claro que precisamos da chuva para florir, mas tudo em excesso é prejudicial. Dá uma tristeza danada verificar a situação complicada na qual se encontram os desabrigados das chuvas. Impossível ficar indiferente às suas tragédias… Nem todo mundo possui força suficiente e resiliência para recomeçar quantas vezes for preciso. O jeito é ajudar com doações, trabalho voluntário e orações. E pensar que são sempre tragédias anunciadas… todo ano a situação se repete! Ainda tenho esperança que, um dia, nossos governantes utilizem a honestidade e transparência para gerir nossos recursos públicos. Enquanto esse dia não chega, vamos cobrando, fiscalizando, fazendo a nossa parte e ajudando no que for possível. E que venha 2012!

Fonte: Rede SaciSite externo.

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Postado por: Gilberto Porta
Arquivado na categoria: Adriana Lage.
Assuntos relacionados: o mundo da deficiência.
Visitado 895 vezes, 7 foram hoje

1 Comentário

  1. Comentário feito por: Telma de Oliveira em 12 de janeiro de 2012 às 22:30.

    Adriana (e a quem mais interessar): eu também tenho problema com chuva; andar na calçada molhada com bengala numa mão e sombrinha na outra é tombo na certa. Mas, a respeito dos cadeirantes, pensei uma coisa: andei observando os militares da cavalaria que fazem a ronda nesses dias chuvosos. Já viram a capa que eles usam, larga, abre-se em cima do cavalo. Quem sabe uma daquela poderia ser adaptada para cadeira de rodas? Um bom lugar para procurar é nessas lojas que vendem equipamentos de trabalho e segurança – capas para vigias, botas de borracha, luvas e capas impermeáveis! É uma tentativa que pode dar certo.

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