A dona de casa Irene Coelho, de 60 anos, reservou a manhã desta quinta-feira (24) para aprender mais uma técnica de artesanato. Sandálias e fitas de pano colorido espalhados pelas mesas indicavam o início de outra etapa do Projeto ‘Oficina de Convivência’, iniciativa da Coordenadoria de Apoio e Assistência à Pessoa com Deficiência (Caade). Irene sofre com sequelas da poliomielite, mas a dificuldade de locomover-se não a desanima na hora de ir para as oficinas.
Ela e outras cerca de 15 pessoas participaram da Oficina ‘Sandália Tropical’, segunda etapa do projeto realizada neste ano. Quem ensinou as atividades foi a técnica da Caade, Thamirys Fernanda de Oliveira, de 22 anos. “A ação promove a interação entre os participantes e afasta um possível estado de depressão, que ocorre principalmente quando as pessoas não saem de casa, além de ser uma fonte de renda, já que eles podem produzir para vender”, ressaltou.
Irene é um exemplo para confirmar o que diz Thamirys. Nos finais de semana, Irene ensina arte para os jovens em uma escola. Ela faz bonecos de pano, escorador de porta reciclável, entre vários outros. Muito do que produz e ensina aprendeu nas oficinas da Caade. “As oficinas são momentos de distração e aprendizado. Os produtos ajudam a complementar minha renda. Hoje, por exemplo, estou aprendendo a decorar chinelos e posso até pegar uma encomenda de sandálias decoradas”, idealizou.
Para a coordenadora da Caade, Ana Lúcia Oliveira, o projeto apresenta uma alternativa para que as pessoas alcancem a automia financeira. “Temos relatos de que os participantes conseguiram reproduzir o que aprenderam e utilizaram o conhecimento para a geração de renda, afirmando-se socialmente”, ressaltou a coordenadora.
A jovem Camila Brandão, de 28 anos, tem deficiência intelectual e conta os benefícios que as oficinas trouxeram para ela.“Faço curso de artes e repasso para os outros tudo que aprendo, oportunidade para me sentir útil. Venho participar das oficinas sempre que posso porque é uma oportunidade de sair de casa e conhecer pessoas. Nunca trabalhei e acredito que o que vou produzir possa gerar uma fonte de renda”, disse.
Irene, Camila e os colegas aprenderam a decorar sandálias de tiras, produziram as peças e levaram como modelo. Ao final das atividades, receberam os certificados de participação. As oficinas são gratuitas e os interessados em participar dos próximos encontros devem procurar a Caade (Rua da Bahia, 2200, Lourdes). O telefone para contato é (31) 292- 7754.
A cada etapa, o projeto oferece um tema e uma atividade diferente para o público. Os principais objetivos são incentivar o protagonismo dos participantes, oferecer oportunidades de socialização e incentivar a multiplicação de experiências e talentos.
Oportunidades de Emprego
Além das oficinas, quem busca uma oportunidade no mercado de trabalho também pode entrar em contato com a Caade. A coordenadoria conta com um posto do Sistema Nacional de Emprego (Sine) destinado ao atendimento de trabalhadores com deficiência.
Só hoje, são mais de 800 vagas em aberto. As oportunidades são para profissionais de vários níveis de escolaridade e os salários chegam a R$ 1500,00.
Os trabalhadores podem procurar a unidade ou acessar o portal www.sine.mg.gov.br, para verificar as vagas oferecidas diariamente.
Caade
Coordenada pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), a Caade tem como missão planejar, dirigir, executar, controlar e avaliar as ações das diferentes políticas públicas estaduais para atender demandas das pessoas com deficiência.
Para eles, a cadeira de rodas passou a ser extensão do próprio corpo e, após o impacto inicial, a adaptação se faz com um único propósito: o de viver a vida.
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Daniel de Cerqueira / Agradecimento Praia Clube, Nélio Rodrigues, Marcos Rosa e SXC.
“Seria inaceitável me render à deficiência e parar no tempo”. Letícia Ferreira, nutricionista e nadadora. Ficou paraplégica depois de acidente de carro. Mora em Uberlândia.
Mostram a cara e as rodas mundo afora. Vivem aí na sua singularidade, como qualquer um da espécie humana, com seus problemas, alegrias, afazeres, corre-corre. Igualados para grande parte das pessoas que os veem na sua deficiência física: paraplégicos, tetraplégicos, num estigma de tristeza, sem mais nem menos. Agora, iluminados, focados, pinçados da multidão com a personagem Luciana, irreal, cópia do que ocorre fora das telas, repetidos em tantos acidentes, na novela Viver a Vida. Do lado de cá, com seus toques bem reais, depois de digerir a falta de sensibilidade nas pernas e tronco, dependendo do grau de lesão na medula, intrometida no meio da vida sem aviso prévio, reinventam-se, regeneram-se. Se faltam as pernas, há a extensão da cadeira de rodas, se as mãos não fazem o que querem, há a fala, se o sexo não é do mesmo jeito, há a visão, se não controlam intestino e bexiga, há como re-educá-los a trabalhar em horários determinados.
“Meu instinto de sobrevivência não me deixava abater. Sempre fui muito ativa, seria inaceitável me render à deficiência e parar no tempo”, diz a nutricionista e nadadora Letícia Ferreira. Sublimou a paralisia, frequenta lugares que têm ou não adaptação, treina, participa de competições, trabalha, faz as tarefas de casa, compras, vive sozinha. “Divirto-me com meu cachorro, descanso o corpo e a mente saindo para jantar, dançar, escutar músicas boas.” Nada diferente de quem tem o físico com todos os sentidos, num processo que não é instantâneo de uma hora para outra, no virar de páginas, há as nuances do ser humano: digerir a fatalidade de um dia estar bem e no outro não sentir as pernas. “No primeiro momento há perda muito grande, ficam atordoados, não acreditam mais em Deus. Depois apaziguam essa dor, começam a buscar uma saída de acordo com a realidade da vida”, analisa o psicanalista Adilson de Aguilar.
“Não tive nenhum arranhão. Só quebrei a coluna”. Fellipe Rodrigues Lima, universitário. Caiu do parapeito da casa de um amigo. Mora em BH.
É o que o mundo apresenta, o jeito é se metamorfosear. Antes do dia em que dormiu e caiu do parapeito da casa de um amigo, o universitário Fellipe Rodrigues Pereira Lima praticava esportes radicais: de surfe a skate. Aí veio a paraplegia, depois a descoberta da descida de corredeira, caiaque-surfe, mergulho livre, pesca submarina, triciclos. O radical se manteve em sua vida, transferido dos pés para as mãos. “Reaprendi a viver. Não adianta voltar atrás. Retiro experiências com o passado, vivo o presente e vou construir o futuro,” diz. Do que se foi, as fotos das manobras radicais de skate, de agora, a faculdade de gestão empresarial, o namoro, o trabalho, a fisioterapia, o cachorro, a busca por patrocínio para a canoagem, o dia-a-dia rotineiro. Morou seis meses na Flórida, nos Estados Unidos, três deles sozinho e se prepara para a temporada de 90 dias na Austrália. “Minha ideia é viver dos esportes radicais, seja como competidor ou investidor.”
O radical porque, no seu entender, é vida. O que é mais difícil? “Meu maior inimigo são as escadas”, afirma Fellipe Rodrigues Lima. O resto se adaptou, depende dele, dirige seu carro, vai-e-vem sem grandes obstáculos, a não ser os degraus que sempre brotam à frente neste mundo feito para os que têm as pernas em pleno funcionamento. Segue com a vida, como deve ser. “A tarefa é aprender a viver com o que se tem. Tanto no que se refere ao corpo e funções não comprometidas, quanto os recursos que se obteve ao longo do desenvolvimento e experiências”, diz o psicólogo Luiz Carlos Avelino da Silva, professor de pós-graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
“Tudo que faço hoje é verbal”. Mara Gabrilli, vereadora de São Paulo. Há 15 anos o carro em que estava despencou 15 metros e ela ficou tetraplégica.
A vereadora Mara Gabrilli, de São Paulo, vive da fala, o que nem isto conseguia logo depois do acidente de carro que a deixou tetraplégica, como Luciana, a personagem da atriz Alinne Moraes. “Não saía som, vivia entubada, estava muito mal. Fui me defendendo, não tive tempo para pensar na deficiência. Minha luta era pela vida.” Recuperou a fala, não os movimentos de braços e pernas. Precisa de ajuda para tudo, teve de repaginar a sua vida. “O que faço é verbal.” Entoa a voz na defesa dos deficientes, da acessibilidade à remoção do estigma de tristeza carimbado nas cadeiras de rodas, foi secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da capital paulista, fez fotos sensuais e campanha de lingerie.
“Sou mulher cadeirante e daí?”, diz Mara. Sempre se preocupou com o corpo e depois do acidente a atenção aumentou. “A vaidade é até mais interna, visceral.” É a luta para controlar o funcionamento dos órgãos afetados com a paralisia do tronco para baixo. Vai além do que se passa na novela, da doente maquiada, do que se pode imaginar, mas nada que paralisa a vida: aí está a vereadora. “Minha mãe está irritada com a novela, reclama: como a Teresa fala que a Luciana vai ficar inválida?”
Cada um reage de forma diferente quando se depara com a tetraplegia e paraplegia. “Eu não gosto de pensar isso como capacidade natural ou força de vontade da pessoa, como se imagina comumente e como fica bonito na novela. Isto aponta a recuperação e superação como prêmio aos fortes e não é bem assim”, afirma Luiz Carlos Avelino. Inclui um monte de gente: médicos, psicólogos, educadores físicos, fisioterapeutas, família, amigos. “Reinventar-se é algo social, que se constrói com a ajuda do outro na descoberta de novas possibilidades e recursos.”
“Passou uma vez rápida a ideia de suicídio. Hoje encaro a vida numa cadeira de rodas”. José Wan Der Maas de Souza Júnior, jogador de basquete. Acidente de moto.
Há de se contabilizar esforços de todos. O jogador de basquete José Wan Der Maas de Souza Júnior chegou a pensar em suicídio: o acidente de moto em Carlos Chagas, no Vale do Mucuri, uma semana inconsciente, depois acordar num hospital em Belo Horizonte, rodeado de médicos. “Fiquei sem entender, estava imóvel, percebi que não mexia as pernas.” Conscientizou-se do que havia acontecido, a busca pela reabilitação, o contato com o mundo antes nem pensado da deficiência, a colaboração de amigos e família. “Eles me ajudaram muito.” Viu que queria continuar nessa vida, achou força física e psicológica no esporte. Hoje está no time da Associação Mineira de Paraplégicos. “O basquete é parte de mim.”
Mora sozinho, lava roupa, faz comida, vira-se. O difícil é mudar a temperatura do chuveiro, tão distante das mãos, e o receio de uma frigideira cair no seu colo quando for preparar a refeição. “Uso mais a inteligência do que a força”, diz Júnior. Redescobriu-se nestes quatro anos e meio após a queda da moto. “A pessoa se adapta, busca saída, senão enlouquece”, lembra o psicanalista Adilson de Aguilar, que trabalha com deficientes. Como acontece com qualquer um, mesmo com todas as funções do corpo. A vida tem de ser preenchida.
“Antes eu atropelava a vida, não vivia”. Nardélio Fernandes Luz, escritor. A tetraplegia veio depois de um mergulho no rio. Mora em Uberlândia.
Quando mergulhou no rio e de lá saiu tetraplégico, o funileiro Nardélio Fernandes da Luz tinha 31 anos e muitas histórias para contar. “Tive sorte porque quando fiquei deficiente estava com a cabeça feita”, diz. Percebeu que podia escrever, o que fazia antes espaçadamente por falta de tempo, e resolveu publicar o livro autobiográfico Vida após a Vida. A dele que mudou por completo, com meses de recuperação, dependência para as necessidades básicas. “Isto é o mais difícil. Quem cuida do tetraplégico vive duas vidas: a sua e a da pessoa.” Divide com a mãe, senhora de 73 anos, e as irmãs. O resto vai bem, sem os movimentos das pernas, das mãos e parcialmente dos braços. “A vida não é melhor hoje, mas é feliz. Antes eu a atropelava, não vivia”, afirma o escritor e ganhador da medalha de prata no campeonato de bocha adaptada. É, ele joga também, sai, já teve três namoradas depois do acidente, mostra que é capaz e muito, de levantar a bandeira contra o preconceito de que são incapazes, assexuados, coitadinhos. “As pessoas têm a mania de querer ajudar, quem precisa aprender é o próprio deficiente.” Estão aí como qualquer um, com seus problemas, com seus desejos. “O sonho primário do paraplégico é andar e do tetraplégico é ser paraplégico”, diz Nardélio.
Nem sempre, a vida encarrega-se de transmutar sonhos. A nadadora Letícia Fernandes garante que não é o dela, torce para que as pesquisas com células-tronco ajudem os deficientes físicos, mas não tem a pretensão de voltar a andar. “Não sei se me adaptaria, porque houve mudanças no meu corpo. Bastaria a mim poder experimentar novamente algumas sensações como a textura da terra, da grama, da cerâmica fria ou do asfalto quente.” Não há novela tão emocionante quanto a vida é, bruta, lapidada, sensível, real, aí para ser encarada de frente, de cadeira de rodas.
Lesões medulares
Paraplégico.
A medula é lesionada em nível lombar ou toráxico. Perde a sensibilidade das pernas, mantém o controle do tronco e movimentos dos braços e mãos.
Tetraplégico.
A lesão ocorre próximo ao pescoço. Perde a mobilidade total ou parcial de braços, pernas e tronco. Há os que ficam totalmente paralisados e dependem de respiração artificial.
Quando mais ocorre:
- Acidentes de carros;
- Ferimentos por arma de fogo;
- Queda;
- Mergulho em águas rasas.
O que querem:
- Portas mais largas;
- Rampas de acesso ou elevadores;
- Balcões de recepção e caixas eletrônicos mais baixos;
- Respeito às vagas reservadas a deficientes nos estacionamentos;
- Vê-los como pessoas normais, não coitadinhos;
- Não os ajudarem, só quando pedirem.