Em seu artigo, Adriana Lage comenta sobre a demora na aquisição de novos táxis acessíveis na capital mineira
Adriana Lage
Sábado à noite, fui fazer a exibição da minha figura pela noite de BH e resolvi voltar pra casa de táxi. Para variar, tentei utilizar o único táxi acessível que circula pela capital – e novamente não tive sucesso. Geralmente ele está ocupado e “seu” Ranulfo já me deu até seu celular para que pudesse localizá-lo mais rapidamente. Só que a procura é muito grande…
Assim que chegamos ao ponto de táxi, comentei com minha irmã que o rosto do motorista não me era estranho. A menina gozou minha cara dizendo que só eu mesma pra reparar em taxista e gostar tanto da base da pirâmide social! Quando entrei no táxi, o motorista foi logo se identificando e dizendo que se lembrava de mim. Nos conhecemos em 2009, no curso de formação dos taxistas que dirigiriam os carros adaptados. Na época, fui convidada pela Fátima, da Coordenadoria do Direito do Deficiente, para dar meu depoimento como usuária dos serviços e ser ‘cobaia’ para utilizar o táxi. O motorista se lembrou de muitas coisas que falei e disse que gostou muito do curso. Minha irmã falou que ele deve ter ficado com medo da dona encrenca e fez tudo conforme o figurino. Por exemplo, achei muito legal o fato dele só ligar o taxímetro quando já estávamos dentro do carro e com a cadeira de rodas no porta malas. Da mesma forma, assim que chegamos em casa, ele desligou o taxímetro antes de qualquer coisa.
O que mais me chamou a atenção em nossa conversa foi o fato de ele, indignado, comentar que a BHTRANS ainda não liberou mais nenhum táxi acessível para circulação em BH. Se pensarmos que, em 2009, saímos do curso com a promessa de que em breve mais táxis acessíveis seriam credenciados, já se passaram quase dois anos e nada mudou.
Segundo o motorista, existem vários taxistas interessados em ter um veículo acessível, já que não há dúvidas em relação à demanda. Gente para utilizar o serviço não vai faltar. Como as eleições estão próximas, é uma boa hora pra começar a atazanar o povo com emails cobrando que a licitação saia do papel.
Acho minha cidade linda; Minas Gerais é um Estado fascinante, cheio de riquezas naturais, uma culinária divina e de gente que nunca perde o trem. É terra de grandes poetas, músicos, artistas, presidentes… Pena que ainda não seja tão acessível. Verdade seja dita, estamos no caminho certo – citando um exemplo, nos últimos anos, a capital virou outra em questão de acessibilidade, a frota de ônibus e o metrô são bem acessíveis. Já os táxis… Nós, cadeirantes, ainda precisamos engolir muitos sapos e ter uma boa dose de paciência quando precisamos desse serviço! Dá pra imaginar uma capital com apenas um táxi acessível rodando pra atender milhares de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida?!
Na Coordenadoria do Direito dos Deficientes disseram-me que foi feito um pedido de licitação para mais carros acessíveis (na faixa de 40 a 60 carros). A atendente disse que deveria verificar junto à BHTRANS quando ocorrerá a licitação. Entrei em contato com eles ontem, e fui informada que a autarquia ainda está elaborando o edital, sem previsão nenhuma de publicação. Ou seja, pelo visto, as coisas vão continuar do mesmo jeito por um cadinho de tempo. Já dizia o ditado popular: “alegria de pobre dura pouco”! O que não podemos fazer é aceitar essa situação de braços cruzados. Sou da opinião de que o maior interessado na história é quem deve correr atrás do que deseja, provocando as mudanças necessárias. Se ficarmos sempre esperando pela boa vontade do outro, na inércia, provavelmente, a vida passará e tudo ficará da mesma forma.
Veja o post sobre a licitação: BH ganhará 60 táxis adaptados.


