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Do amor e outros “demônios”

Publicado em: 4 de julho de 2011 às 18:04.

Adriana Lage comenta sobre relacionamentos amorosos entre pessoas com sérias limitações motoras e sobre o Bolsa Atleta

Adriana Lage

Como diria meu amigo Alexandre, não há nada tão ruim que não possa piorar. Pensei que minha maré negativa tivesse passado. Doce ilusão! Essa semana foi bem estressante e muito corrida. Às vezes, tenho a sensação que estou andando em círculos. Quando as coisas chegam perto de um final feliz, mais mudanças.

As decepções e frustrações fazem parte da vida de qualquer ser humano. Querendo ou não, ninguém consegue escapar dessas coisas. Acho que o fato de ser deficiente desde pequenininha e ter engolido muitos sapos nessa vida, fizeram de mim uma pessoa mais forte. Como sou meio exagerada e dramática – me perdoem, mas sou sagitariana! -, no primeiro instante, desabo, choro, reclamo e me entristeço. Pouco depois, com o coração mais sossegado, consigo recomeçar. Minha mãe sempre me chama de mutante. Estou em constante transformação física e/ou mental. Acho que as mudanças sempre nos trazem algum aprendizado e a possibilidade de crescimento. Não consigo viver minha vida em ‘banho maria’, esperando, pacientemente, as coisas acontecerem enquanto permaneço sentada. Preciso de movimento, de desafios e novas paixões para recarregar as baterias.

Desde o ano passado, ando correndo atrás da redução da minha jornada de trabalho para 6h. Funcionário público pode solicitar a redução da jornada mantendo o mesmo salário, conforme disposto na Lei 8.112/1990. Como sou celetista, não posso solicitar horário especial. Com isso, caso opte por trabalhar 6 horas, terei que arcar com uma redução salarial de 25%. Caso conseguisse uma bolsa atleta, arcaria com essa redução. Não pude tentar a Bolsa Atleta do Governo Federal, pois ela exige que existam, pelo menos, cinco atletas na sua classe esportiva. Embora meu tempo esteja bem longe do recorde brasileiro, ainda assim, sou a primeira no ranking nacional na classe S3. O Governo de Minas lançou uma bolsa atleta estadual. Na categoria nacional, o valor é de R$ 650,00 mensais. Infelizmente, não fui contemplada. O motivo alegado foi que, embora o evento no qual ganhei minha medalha, seja um circuito nacional, não participei das outras etapas. Inicialmente, fiquei triste, pois vi minhas 6 horas voando pela janela. Passado o drama inicial, aceitei a ideia. Como são muitos os concorrentes, faz sentido dar preferência aos atletas que possuem os melhores tempos. Pena que nosso país não incentive em quase nada a prática de esportes para pessoas com deficiência. O sonho de nadar mais e melhorar meus tempos, terá que ser um cadinho adiado. O que mais me entristece nesses casos é que a fiscalização é muito fraca. Para terem uma ideia, é proibido o acúmulo de bolsas. Só em Minas, cerca de dezessete atletas que já contam com a bolsa federal, foram contemplados com a estadual. Felizmente, esses casos serão revistos. Além disso, já me contaram o caso de um nadador paraolímpico que recebe a bolsa atleta internacional sendo que deveria receber a nacional (quase metade do valor da internacional). Como o pai dele possui amigos na política, a bolsa internacional foi obtida com o famoso e lastimável ‘jeitinho brasileiro’. Embora critique esses comportamentos, nunca denunciei ninguém. E nem pretendo! Cada um escolhe ser ético ou não.

No meu trabalho, estou passando por uma tsunami. Após um ano de reestruturação, tivemos outra bomba: será feito um rodízio de chefes. Com isso, passamos uma semana cheia de boatos e especulações. Felizmente, consigo me manter light e esperar as coisas acontecerem. Nesses casos, não adianta sofrer por antecipação. Mas tenho alguns colegas de trabalho que ficam muito estressados. O clima não fica muito agradável. Estou uma máquina de fazer programas. Todos os chefes querem arrumar a casa para receber o chefão. Com isso, triplica o serviço na informática. Fora isso, ando finalizando minha monografia da pós-graduação e estudando muito. Um caos total. Sou a sociável da família, mas, nessa semana, acabei me esquecendo de três aniversários importantes. Até recebi recado de uma amiga querendo saber o motivo do meu sumiço.

Outra coisa que me chamou a atenção nessa semana foi uma matéria sobre relacionamentos que discutia o seguinte dilema: as mulheres estão mais exigentes ou são os homens que estão se esforçando menos? Independente da deficiência, acho que, quando conquista uma independência financeira e evolui bastante nos estudos, as mulheres se tornam mais exigentes. Eu, particularmente, dependendo do homem, nem perco meu tempo. Já sei que é um barco furado. Segui os conselhos da minha irmã e tentei aplicar umas técnicas usadas na administração para avaliar meu relacionamento com o Alexandre. Nesse quesito, ando uma negação. Está difícil demais ser racional. Pois bem, preenchi os pontos positivos e negativos dos fatores internos e externos do nosso relacionamento. Sinceramente, não cheguei a um resultado ainda. Tenho muita dificuldade em ser racional quando a situação envolve amor. Conversando com minha ex-quase-sogra, divagamos sobre as complicações e vantagens de um relacionamento entre dois cadeirantes tetraplégicos. No final das contas, eu concordo com o que o Fabiano Pulhman me disse: “quando se está apaixonada, tudo é possível”. Não tem jeito: a minha porção que adora contos de fadas acredita que, quando há amor e força de vontade, os obstáculos são sempre passíveis de serem contornados. Por exemplo, sendo racional, sei que preciso de uma cuidadora, cujo custo é bem caro. Se a outra pessoa também precisa de algum apoio, as despesas com o cuidador podem ser divididas. É claro que as coisas serão mais difíceis, mas o impossível é mesmo questão de opinião. Por exemplo, como explicar o fato de uma pessoa sem os braços conseguir colocar lente de contato ou fazer maquiagem usando os dedos dos pés? Só mesmo Deus e uma enorme força de vontade para explicar coisas assim! Eu me lembro de um atleta que conheci no Rio, em 2008; ele não tinha os braços. Estava na espreguiçadeira do hotel lendo um livro. Para mudar as páginas, ele colocava um cartão de crédito na boca e passava as folhas. Fiquei boba quando ele conseguiu amarrar o cordão da sunga com os pés. Interessante demais! Pra mim, um exemplo completo de superação – o difícil foi convencer minhas irmãs que meu olhar, naquele instante, tinha sido totalmente técnico! Uma coisa que me machuca quando me relaciono com pessoas sem deficiência são as cobranças. Por mais que a pessoa te ame, chega um momento em que começam a surgir frases como: “nossa! É ruim carregar você e a cadeira.”, “não sei se conseguirei segurar essa barra de namorar uma cadeirante”, “minha mãe acha que você está atrasando minha vida… ela quer netos” ou “você gasta muito tempo com fisioterapia. Tempo em que poderíamos estar juntinhos”. Enfim, cheguei à conclusão que a coisa é feia de todo jeito! Mas, querendo de verdade, tem jeito pra quase tudo nessa vida.

Há uns anos atrás, quando não sonhava em me relacionar com um tetra, li uma monografia sobre relacionamento sexual entre pessoas com sérias limitações motoras. O estudo de caso foi feito na Europa. Eu me lembro que achei interessante os depoimentos onde as pessoas com deficiência descreviam as dificuldades para se chegar às vias de fato, se é que vocês me entendem (risos). Em um dos casos, a mulher pediu ajuda a duas amigas para chegar até o motel. Da mesma forma, um amigo levou o homem. O casal precisou de ajuda para se deitar na cama e tirar algumas peças de roupa. Anteriormente ao grande dia, eles já tinham estudado o posicionamento na cama. Resumindo, após a ajuda inicial, os amigos se ausentaram do quarto e o casal pôde desfrutar de toda a sua intimidade. É claro que o trabalho não descreveu detalhes do ato em si. No final das contas, as pessoas disseram que é possível sim desfrutar dos prazeres do sexo como qualquer pessoa. Concordo plenamente quando dizem que o sexo está na cabeça. É ela quem comanda tudo! Caso contrário, como explicar a existência de orgasmos em pessoas que só possuem sensibilidade e movimentos do pescoço pra cima?

Enfim, acho que sendo ou não deficiente, o grande barato dessa vida são os desafios. Que graça tem fazer sempre as mesmas coisas e não correr riscos? O friozinho na barriga diante do desconhecido sempre nos leva a ir além dos nossos limites. Não sou de desistir das coisas que quero. Corro atrás até conseguir; só penso em desistir após inúmeras tentativas. Caso tenha, pelo menos, 1% de chance de obter sucesso, vou à luta. Quando mais difícil a conquista, maior o desafio.

Fonte: Rede SACISite externo.

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Postado por: Gilberto Porta
Arquivado na categoria: Adriana Lage.
Assuntos relacionados: o mundo da deficiência, sexualidade da pessoa com deficiência.
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