Adriana Lage comenta sobre outras ajudas atrapalhadas que recebeu nos últimos dias.
Adriana Lage
Já escrevi alguns textos sobre as ajudas atrapalhadas que sempre rendem um friozinho na barriga do cadeirante. Mas, como nesses dias parece que meu anjo da guarda está em férias, vou compartilhar com vocês mais algumas experiências recentes que me deixaram com algum machucado ou morrendo de rir.
O banco onde trabalho tem me rendido boas ajudas atrapalhadas. Um dia desses, quando estava indo embora, pedi ajuda a um colega de trabalho para entrar no carro. O homem é alto, todo musculoso e muito atencioso. Imaginei que não teríamos problemas. Ensinei a ele qual seria a melhor forma de me carregar. Só que, na hora H, meu bumbum ficou preso no banco. Quem mandou herdar tanta sustância da parte materna! Resultado: ele ficou sem graça de empurrar meu bumbum e acabamos esparramados no banco do motorista. O homem ficou branco de vergonha.
Falei que não precisava ficar assim, pois isso acontece de vez em quando. Realmente, na maioria dos casos, é muito sem graça colocar a mão no bumbum do outro, mesmo que seja em casos de emergência. Podendo evitar, eu prefiro. No dia seguinte, tivemos o mesmo problema. Só que dessa vez ele utilizou a perna para empurrar meu bumbum. Foi uma boa tática; agora já sei como orientar meu ajudante em casos de bumbum engarranchado! Numa bela manhã, um dos bombeiros civis que trabalham no banco veio me ajudar a subir um degrau bem alto na recepção. Falei com ele que a forma correta de subir seria com a cadeira de rodas virada para o degrau, subindo de frente. Nem tive tempo de terminar a frase. Só senti meu pescoço caindo pra trás e dando uma chicotada. A figura subiu a cadeira de costas e fez uma força danada como se fosse levantar um elefante.
Passei uns três dias com o pescoço rígido e dolorido. Minha fisioterapeuta me xingou demais, já que meu pescoço é mais mole. É claro que o menino teve a melhor das intenções, mas quase me machucou feio. Ele me disse que tinha aprendido a manusear a cadeira no curso dos bombeiros. No final das contas, ficou com tanta vergonha que evitou chegar perto de mim por alguns dias. Atualmente, essa vergonha já foi superada.
Felizmente, meu local de trabalho está passando por reformas. Podem imaginar o caos! Nessa semana, após um ano, duas rampas foram construídas para que eu não precise mais subir degraus altos. A eliminação de degraus reduz a chance de alguns acidentes. Só que rampas também rendem situações atrapalhadas. Depois de uma reunião exaustiva sobre a implantação de um programa no banco, meu amigo foi descer uma rampinha “quase um precipício” para voltarmos à célula de TI. Sei lá o que ele aprontou que passamos direto! Por muito pouco não atropelamos nosso colega. Por falar em rampa, me lembrei de dois casos da minha época de estudante no CEFET. No primeiro, tinha visto alguns cadeirantes, na televisão, empinarem as cadeiras e descerem rampas voando e sem nenhum perigo. A sem noção aqui pensou que também tinha braços fortes. Comecei a descer a rampa e logo perdi o controle. Se não fosse minha gritaria e minha mãe me salvar na hora certa, teria caído dentro de um lago. No outro, minha professora de geografia, uma senhora bem velhinha que não dispensava um salto alto, foi me ajudar a descer dois andares de rampa até a recepção. Não chegamos nem na metade da primeira rampa. A mulher escorregou, caindo esticada no chão. Por sorte, ela não soltou minha cadeira, que ficou virada em cima dela. A professora arrumou uma gritaria e logo apareceu socorro.
Minha irmã mais velha nem parece que convive com minha deficiência há anos. Vive me passando sustos. Às vezes, ela fica magoada quando falo que posso ir sozinha e que não precisa me ajudar. Ela é gente finíssima, mas muito estabanada. Costuma bater meus pés na parede ou na mesa, não presta atenção em buracos e não costuma enxergar os degraus. Sempre que me ajuda fico de copiloto avisando sobre os perigos do caminho.
Há poucos dias, fui pegar um táxi na parte de fora de um shopping de BH. Não sei o que eu e minha mãe aprontamos, que caí sentada na parte onde se fecha a porta do carro. Eu e minha mãe começamos a rir. Quanto mais ela tentava me levantar, mais a gente ria. O taxista resolveu nos ajudar e entrou no carro para tentar me puxar. O bico do meu sapato agarrou na calçada. Quando o taxista fez força pra me puxar pelas costas, minha perna se soltou violentamente e cai esticada no colo do taxista. Foi uma cena tão medonha e sem noção que custei a parar de rir. O coitado do taxista ficou suado com o esforço e todo envergonhado.
Vale lembrar aos leitores que ajudar alguém é sempre um gesto nobre, mas que precisa ser feito com cuidado.


