Adriana Lage comenta sobre um esporte voltado para as pessoas cegas: o futebol de cinco e conversa com o atleta Rogério Ribeiro, ala da APADEVI de Campina Grande/PB.
Adriana Lage.
Hoje vou falar sobre o futebol de cinco. Sou quase uma analfabeta em relação ao futebol. Aprendi algumas coisas na minha época de torcedora são paulina fanática. Nada como a presença do Raí para me fazer gostar de futebol! Meu avô vivia brincando que seria deserdada, já que sou de uma família atleticana e não tenho nenhum parente na terra da garoa. O futebol de cinco é um esporte voltado para pessoas cegas e possui regras semelhantes ao futsal. Como entendo menos ainda de futsal, recorri ao site do Comitê Paraolímpico Brasileiro e, sobretudo, ao meu amigo Rogério Nunes Ribeiro, jogador de futebol de cinco.
Trata-se de um esporte exclusivo para cegos (cegueira total ou parcial). As partidas ocorrem em quadras de futsal ou em campos de grama sintética. Cada time é composto por um goleiro e quatro atletas de linha (fixo ou central, ala e pivô). Muitas regras são semelhantes às do futsal. As principais diferenças são:
- A bola tem guizos dentro dela para que faça barulho. Assim, os jogadores conseguem localizá-la através do som emitido pelos guizos.
- Nas laterais da quadra existe uma banda de pouco mais de um metro de altura, que impede que a bola saia pela lateral; A bola só sai na linha de fundo.
- Todos os atletas de linha utilizam vendas nos olhos. Dessa forma, caso o atleta tenha algum percentual de visão, não levará vantagem sobre os demais. Os goleiros são os únicos atletas que enxergam. Os jogadores não podem encostar nas vendas. Isso é considerada falta.
- A área onde o goleiro pode pegar a bola é menor do que no futsal.
- Uma das coisas mais interessantes no futebol de cinco é que a torcida permanece em silêncio o tempo todo. Só pode se manifestar quando a bola não está rolando. Caso contrário, prejudicaria os atletas. O local da partida deve ser silencioso e sem eco.
- A orientação da equipe é dividida pelo guia, o goleiro e o técnico. Cada qual com uma área delimitada na qual pode orientar. O guia ou chamador, que fica atrás do gol, é responsável pela orientação do seu ataque, informando onde devem se posicionar e para onde chutar. Já o goleiro, é responsável pela orientação da sua defesa. O técnico orienta a equipe quando as jogadas ocorrem no meio da quadra.
- O jogo tem dois tempos de 25 minutos e um intervalo de 10 minutos.
Assisti, via internet, à cobrança de pênaltis num jogo do Rogério. Credo! Que coisa tensa. Já imaginaram cobrar pênalti, literalmente, no escuro? Muito interessante… Nesse caso, os atletas não tomam distância para chutar a bola. Se fosse o Mano Menezes, levaria o Rogério para dar umas aulinhas de cobrança de pênaltis!
Agora que já conhecem um cadinho sobre o futebol de cinco, que tal conhecer um pouquinho da rotina do atleta Rogério Nunes Ribeiro?
Paulista de nascimento, aos seis anos de idade foi morar em Campina Grande/PB, considerando-se paraibano. Rogério possui 35 anos, mas tem cara de ser bem mais novo! É graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e em Gestão em Tecnologia da Informação pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). É bancário e atleta de futebol de cinco. Nasceu cego e tem atrofia no nervo ótico.
Adriana: A deficiência visual te impede de fazer alguma atividade?
Rogério: No meu caso, a deficiência que tenho não impede que eu realize as coisas que desejo. No máximo, ela exige que eu passe por algum processo de adaptação, que se eu não tivesse a deficiência, não necessitaria. Muitas vezes brinco com as pessoas dizendo que a única coisa que a falta da visão me impossibilita de fazer é pilotar. Seja: Moto, carro ou avião. Outras coisas que porventura eu não consiga realizar são por falta de adaptação do meio onde vivemos.
Adriana: Já sofreu ou sofre preconceito? Como lida com isso?
Rogério: Sabemos que o preconceito existe, principalmente de forma velada, porém perceptível. Com o maior acesso a informação que ocorre atualmente, percebo uma diminuição considerável desse tipo de atitude. Lido com esta situação de duas maneiras: quando o preconceito é por falta de esclarecimento, procuro mostrar como realmente as coisas são e o quão somos capazes. Já quando percebo um preconceito maldoso, aí ou ignoro ou respondo de forma impositiva.
Adriana: Quais as principais dificuldades que você enfrenta no dia a dia? Por exemplo: quem te ajuda em casa? Como escolhe suas roupas? Você cozinha?
Rogério: Não cozinho. De comida, só entendo de comer. Moro com minha mãe e meu irmão, e eles até me ajudam a escolher minhas roupas, mas, isso não significa que eu também não as possa escolher; muitas vezes faço isso. Quanto à escolha das roupas, uso muito o meu tato para identificá-las. Pegando, conhecemos o tipo de tecido e detalhes que as diferenciam com relação ao modelo. A partir do instante que eu usar uma combinação de roupa, em um momento que não tenha alguém para escolhê-las para mim, poderei me lembrar como já usei anteriormente cada uma. Quanto a perfumes e outras coisas, o tato é fundamental, pois identificamos com as mãos onde cada coisa está armazenada.
Adriana: Achei engraçado uma cega dizer que tinha muito medo de se relacionar, pois não sabia por onde começar, já que muitas pessoas utilizam o olhar como forma de sedução. Você tem dificuldades em arrumar uma parceira? Já teve problemas com isso?
Rogério: É fato que o olhar para muita gente é fundamental na hora de se iniciar um relacionamento, seja este para fazer amigos ou para conseguir uma namorada. Lógico que pelo fato de não enxergar, disponho de uma arma a menos, porém, graças a Deus, sou um cara bastante comunicativo e não enfrento problema para me relacionar; acho a conversa um ótimo caminho.
Adriana: Como o esporte entrou em sua vida?
Rogério: Desde criança, sou apaixonado por esporte. Além de praticar o futebol de cinco, sou aficionado por acompanhar esportes pela televisão, rádio, internet. Também gosto de ir ao estádio acompanhar os jogos do Treze de Campina Grande, meu time do coração. Comecei a jogar bola, ainda na infância, no Instituto dos Cegos aqui da cidade onde moro. Também jogava bola na rua com amigos que enxergam. Isso inclusive foi muito bom para minha socialização.
Adriana: O que o esporte representa na sua vida?
Rogério: Considero o esporte muito importante para minha vida, pois o encaro em primeiro lugar como um entretenimento, visto que me divirto jogando bola, posso conhecer muitos locais/pessoas e ainda competir.
Adriana: Quais as principais competições que participou e seus principais títulos?
Rogério: Já participei de competições estaduais, regionais e nacionais. Como conquistas, ganhei com a equipe da APADEVI alguns campeonatos paraibanos: fomos vice campeões regionais e tivemos a terceira colocação em nível nacional.
Adriana: Como você consegue conciliar a carreira de atleta com o trabalho? Dá pra treinar sem problemas? Quais as principais dificuldades enfrentadas por você no esporte? Você conta com alguma bolsa ou patrocínio?
Rogério: Não há problemas para conciliar os treinos com o trabalho visto que, em geral, nossos treinos ocorrem nos finais de tarde após o encerramento do expediente bancário. As maiores dificuldades para a prática do esporte são a resumida quantidade de atletas praticantes da modalidade e a falta de condição financeira de muitos para praticarem o esporte. Na nossa equipe, por exemplo, temos vários atletas que residem em outras cidades, e de uma forma ou de outra, existe algum custo para que eles possam treinar. Com a terceira colocação em nível nacional que alcançamos no último campeonato, teremos direito, no ano que vem, a recebermos a Bolsa Atleta. Desde o ano que passou, nossa associação tem se estruturado e conseguido alguns apoios no sentido de oferecer melhores condições para prática do esporte por parte dos nossos atletas.
Adriana: O Brasil se destaca no cenário mundial como uma das grandes potências no futebol de cinco. Quais são as principais estrelas?
Rogério: O Brasil é a maior potência mundial no futebol de cinco, sendo o atual campeão mundial e bicampeão paraolímpico. Os principais jogadores são o gaúcho Ricardo Alves, conhecido no mundo do futebol de cinco como Ricardinho, e o baiano Jéferson Gonçalves, mais conhecido por Jefinho.
Adriana: Existem times de futebol de cinco compostos por mulheres?
Rogério: Com relação ao futebol feminino, foi criada, há pouco tempo, uma equipe no Rio de Janeiro, que por sinal, ganhou uma competição internacional. Mas, o futebol feminino como se diz, ainda está engatinhando.
Como podemos notar a deficiência nunca é um obstáculo quando se deseja praticar esportes. Acho fantásticas as transformações que o esporte proporciona na vida das pessoas, sobretudo nas com alguma deficiência. O futebol de cinco comprova que tudo nessa vida pode ser adaptado de forma a não excluir ninguém. Afinal, vivemos no país do futebol. Não seria nada justo privar cegos dessa paixão. São poucos os brasileiros imunes ao futebol. Sempre fiquei encantada com os jogos de futebol que aconteciam na AMR (Associação Mineira de Reabilitação) quando era criança. Tinha criança com todos os tipos de deficiência jogando bola! Acho que tudo depende do foco que damos ao nosso olhar… O Rogério é mais um exemplo de superação. Sem falar no sotaque delicioso que ele tem. Ficaria horas ouvindo seus casos. Agradeço ao Rogério pela grande colaboração e lhe desejo toda a sorte. Com certeza, ainda ouviremos muito o nome desse paraibano fantástico. A partir de agora, ele ganhou mais uma torcedora e membro do fã clube. Só não irei torcer por ele quando jogar contra o time do meu amigo Tatá! Aí, o regionalismo falará mais alto.
Fonte: Rede Saci![]()


Leandro é uma daquelas pessoas que mexem com a gente. Tem 30 anos, é tetraplégico, trabalha com vendas e é blogueiro. Impossível ser indiferente a esse exemplo de superação. Afinal, não é pra qualquer um ter sua vida modificada da noite pro dia e tirar dessa experiência uma lição de vida. Já imaginaram o quanto deve ser difícil ser ‘andante’ e, num piscar de olhos, mover apenas dos ombros pra cima? Mas não vou exagerar muito nos elogios para que o moço não fique muito convencido! Vamos ao bate papo: 
