NÃO AO “MINISTÉRIO DOS DEFICIENTES”
PELA CIDADANIA PLENA DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
17 de Outubro de 2010.
Em 27 de Agosto de 2009, os Centros de Vida Independente do Brasil, reunidos na cidade do Rio de Janeiro, aprovaram manifesto contrário ao projeto de lei que prevê a criação do Estatuto da Pessoa com Deficiência. Naquela ocasião, alertávamos que tal proposta “é um contrassenso e um retrocesso, se coloca na contramão da evolução histórica, prejudicial ao reforçar a imagem de inválido e coitadinho, levando a sociedade a continuar tratando a pessoa com deficiência como um ser desprovido de capacidade. Desta forma, o Estatuto legitima a incapacidade e oficializa a discriminação contra a pessoa com deficiência ao separá-la das leis comuns”.
O que dizer de um Ministério específico para tratar das questões relacionadas às pessoas com deficiência? Da mesma forma, e ainda com mais ênfase, expressamos nossa opinião contrária a criação de um “Ministério dos Deficientes” ou algo similar, como vem sendo aventado na campanha presidencial.
Defendemos o fortalecimento da atual Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, funcionando de modo inter-setorial e preferencialmente vinculada à Secretaria de Direitos Humanos ou órgão superior, como parte integrante do arcabouço institucional que atua na defesa de grupos populacionais vulneráveis ou historicamente discriminados, não como ente específico ou exclusivo.
No manifesto contrário ao projeto do Estatuto, colocamos que “deve ficar claro que, nas leis comuns, a pessoa com deficiência está incluída com o mesmo direito aos serviços oferecidos à população e que serão previstas especificidades de usufruto somente quando as condições de uma determinada deficiência assim exigir”. Analogamente, as políticas públicas de cunho universal são prioridade e devem ser pensadas de maneira inclusiva, respeitando a diversidade humana. Podem e deve haver programas focalizados, mas pensados no conjunto das ações do Governo Federal, não a partir de um Ministério específico.
Ainda em relação ao Estatuto, deve-se enfatizar que ele é equivocado e desnecessário, pois a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), maior conquista da história mundial dos direitos humanos, já faz parte do nosso arcabouço legal, bastando ajustar nossa legislação à ela (processo, inclusive, que já está em curso). As diretrizes expressas na CDPD não deixam dúvidas quanto ao caráter inter-setorial das políticas públicas nessa área, em oposição total à ideia de um Ministério específico.
Reafirmamos que na perspectiva de equiparação de oportunidades e participação plena das pessoas com deficiência enquanto cidadãos, não há lugar para um Estatuto separado sobre as pessoas com deficiência ou um Ministério exclusivo que cuide dos seus interesses. Todas as eventuais vantagens de instrumentos como estes “não compensam a anulação do processo de amadurecimento, evolução e conquistas do movimento das pessoas com deficiência nos últimos 30 anos, no Brasil”.
Nestas férias fomos conhecer Socorro, a cidade do interior de São Paulo que busca receber o título de Cidade Acessível. Desde o ano passado, quando visitamos o stand da cidade na Reatech, pretendíamos viajar até lá. Também lemos as matérias que foram publicadas na revista Sentidos, desde quando a cidade começou o seu projeto de acessibilidade, e ficamos muito curiosos.
Tínhamos duas opções de hospedagem: o Campo dos Sonhos e o Parque dos Sonhos. Escolhemos o Parque dos Sonhos por ser direcionado aos esportes de aventura, enquanto que o Campo dos Sonhos é no estilo de hotel-fazenda. Adoramos! O Hotel, que fica na divisa de Socorro/SP com Bueno Brandão/MG, é bastante acessível, considerando as dificuldades do relevo, e todos os quartos podem ser utilizados, indistintamente, por qualquer pessoa, com ou sem deficiência. Os banheiros são amplos e a área de circulação é boa, com box espaçoso e banqueta para banho. Alguns pequenos detalhes poderiam ser acrescidos ou mudados, mas nada que comprometa a funcionalidade. No lavatório, pia rebaixada e espelho regulável tornam fácil o seu uso.
Os equipamentos do quarto, como cabideiros, frigobar, aparelho de ar condicionado, ficam todos em altura adequada. A cama, além de altura adequada, é muito confortável, com um bom colchão. Apenas, a nosso pedido, retiraram do quarto uma cama de solteiro extra, para que o Gil pudesse circular melhor na cadeira de rodas.
Foram-nos oferecidos uma cadeira motorizada e um quadriciclo. O Gil experimentou o quadriciclo mas não se adaptou, então fiquei com ele durante todos os dias de nossa hospedagem. Foi ótimo, assim pude circular livremente pelo hotel sem me cansar e sem sobrecarga muscular. No primeiro dia, por falta de experiência, tive um pouco de medo nas áreas externas. Como o terreno é acidentado, as trilhas são muito íngremes e eu tinha medo de que o carrinho virasse. Depois que me convenci de que isso não aconteceria, pude curtir meu novo meio de transporte.
No restaurante, o serviço self-service conta com balcões baixos e boa área de circulação entre as mesas, permitindo que tanto a cadeira de rodas quanto o quadriciclo circulassem sem obstáculos. Do lado de fora, lavatório e banheiro acessíveis.
Para nossa decepção fomos informados de que as atividades na água estavam suspensos. É que, na nossa inexperiência, não alertamos que estamos em período de seca, os rios com pouca água, o que torna impossível a prática da canoagem e do bóia-cross. Pena, porque eu queria muito experimentar…
Mas pudemos fazer o passeio de camionete (daquele tipo usado em safári) numa trilha deliciosa, morro acima, passando por dentro da mata nativa, por plantações de café. Haja fôlego! Em alguns momentos a gente pensa: "ôpa! Aí a camionete não sobe!" Mas subia, morro acima, e depois despencava morro abaixo, em paisagens maravilhosas. Fomos até a Cachoeira do Limoeiro, um lugar lindo, já no município de Bueno Brandão.
E, o melhor da festa, fizemos a tirolesa! No primeiro dia, o "Circuito Radical", composto de três trajetos: a Tirolesa do Pânico, a Tirolesa do Calafrio e a Tirolesa do Arrepio. Os condutores, muito bem preparados para lidar com os hóspedes com deficiência, nos passaram muita segurança. Ao invés dos cintos, usados pelos outros hóspedes, fomos colocados (colocados mesmo, carregados, colocados e amarrados) naquelas cadeirinhas de tecido acolchoado usadas nos voos de paraglider. Tudo pronto, lá vai a cadeirinha cabos abaixo. E lá vem o frio na barriga! Inevitável dar alguns gritos no meio do percurso, não de medo mas de puro prazer, por estar no ar, tão alto, vendo o vale e o rio tão pequeninos lá embaixo, passando vertiginosamente debaixo dos pés. A primeira tirolesa é de mil metros e a velocidade da descida varia de 40 a 55 Km/h, dependendo, entre outros fatores, do peso do aventureiro. As outras duas são de 400 e 200m. Ou seja, descendo a primeira, as outras ficam mais fáceis.
No dia seguinte fizemos a "Voadora": você desce deitado cabos abaixo. A sensação é mesmo parecida com o voo, com a diferença de que o corpo não está solto no ar. Dá gosto ver a fisionomia dos aventureiros quando chegam, parecem crianças soltas no parquinho, tão contentes estão.
Da cidade conhecemos pouco. Demos uma volta de carro, nos perdemos e não conseguimos chegar ao Centro. De qualquer forma, eu havia sido informada por pessoas da cidade de que o Centro estava em reforma e por isso, intransitável. Ainda, para desespero do Gil, gastei horas numa feira de malhas – muito arrumadinha, com lojas em vez de stands, com grande variedade de artigos, de boa qualidade e preços razoáveis. O França, o motorista que nos acompanhou, também saiu de lá cheio de sacolas. A feira dispõe de lanchonete, cafeteria, água e banheiros, incluindo um acessível.
Agora estamos planejando a volta… Para praticar os esportes na água, fazer o rapel adaptado e conhecer a cidade. Talvez da próxima vez fiquemos no Campo dos Sonhos, para experimentar outras atividades. Com a facilidade de que se pode trocar uma diária de um hotel para o outro, usufruindo das opções oferecidas pelos dois.
É um passeio agradável, fora da rotina, e recomendamos a todos, mesmo os que não têm espírito aventureiro.
Comentário de Adriana Lage, tetraplégica, sobre “Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência”
Adriana Lage
No dia 21 de setembro, comemoramos o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Dizem que essa data foi escolhida por causa da chegada da primavera. Seria um marco para que a população se lembrasse das pessoas com deficiência e promovêssemos nossa visibilidade social. Só que, ainda hoje, algumas flores teimam em não florescer, tornando gris e densa a paisagem.
As conquistas, ao longo dos anos, foram enormes em nosso país. Embora a grande maioria das leis não seja respeitada, contamos com uma legislação bem moderna nesse ponto. Avanços como a “Lei de Cotas”; o “Passe Livre”; o Decreto Lei 5296/2004 que regulamenta e estabelece prazos para que a acessibilidade saia do papel nas diversas áreas; a Resolução 009/2007 da ANAC que estabelece, dentre outras coisas, o atendimento e direitos dos passageiros com deficiência, isenções de impostos na compra de veículos, preferência na aquisição de moradias populares, etc.
Mas é inegável que as pessoas com deficiência ainda sejam praticamente invisíveis perante a sociedade. Tenho um primo deficiente que nasceu com as pernas viradas para trás e sem os dedos das mãos. Conversando esses dias, ele me disse uma coisa que faz sentido: as pessoas com deficiência são cobradas em tudo, mas precisam ser sempre melhores que os outros “normais” para que tenham algum valor. Os direitos, embora sejam os mesmos, muitas vezes são violados.
Mas, na hora de conseguir uma colocação no mercado de trabalho, uma carteira de habilitação, um namorado… O grau de exigência costuma ser bem maior. Eu me lembro de uma cliente que atendi no banco há tempos atrás e que me deixou bem triste no dia. O banco estava lotado, pois era final de ano e estávamos em campanha de recuperação da inadimplência. Ela queria furar fila, já que me entregaria apenas algumas folhas e pediria uma explicação rápida. Mas não quis atendê-la antes da hora. Ela, muito furiosa, foi até o gerente e começou a reclamar, falando que era um absurdo colocar uma aleijada mole e incompetente para atender pessoas. O gerente veio atrás de mim para que eu explicasse o ocorrido. No final das contas, ele me pediu desculpas, deu um puxão de orelhas na cliente e a atendeu. Só que não aceitei aquele fato. Ao olhar rapidamente a documentação para o gerente, notei que faltava um documento. Deixei passar batido, de propósito, para que a mulher tivesse que voltar ao banco. Na semana seguinte ao ocorrido, liguei para ela e marcamos um horário para finalizarmos a liquidação da dívida. Nesse dia, falei demais na cabeça da mulher. Expliquei a ela uma série de coisas, inclusive que discriminação é crime. A mulher ficou toda sem graça, me pediu uma série de desculpas, e, dias depois, ainda me trouxe uma caixa de bombons. Pelo menos, essa pensará duas vezes antes de falar pelos cotovelos…
Ainda hoje, algumas escolas ignoram e se recusam a aceitar alunos deficientes – mesmo sabendo que isso é crime!! Há 30 anos, meus pais tiveram dificuldades em encontrar uma escola para mim. E olha que na época eu ainda andava de muletas… Quando me tornei cadeirante, aos 12 anos, tentei estudar num colégio de freiras, muito antigo e bem conceituado aqui em BH. Passei na prova de conhecimentos, mas, em seguida, as freiras chamaram meus pais e disseram que não achavam boa idéia uma cadeirante por lá, já que a escola não tinha acessibilidade. Minha mãe e minha irmã estudaram lá e sempre me disseram que passando pela área das freiras havia rampa de acesso. Elas se negaram a me receber. Criaram tantos obstáculos que desisti de estudar lá. Em compensação, fui estudar no CEFET/MG. Lá fui muito bem recepcionada. Onde não existiam rampas e banheiros adaptados, eles construíram. Eu me lembro que o coordenador do curso de Eletrotécnica estava doido para que eu optasse por esse curso, pois iria adaptar todos os laboratórios. Constantemente, ainda vejo casos de crianças sendo “convencidas” a procurar outro estabelecimento de ensino.
A tecnologia ajudou muito! Hoje, por exemplo, já contamos com computadores que permitem sintetizar voz, tecnologias assistidas que permitem mover as teclas com um piscar de olhos, professores mais capacitados e treinados (será?) e a obrigatoriedade da acessibilidade, lembrando que não se trata apenas da eliminação das barreiras arquitetônicas (escadas, piso escorregadio, calçadas sem rebaixamento, falta de sinalização visual e sonora, etc.) mas, também da quebra das barreiras atitudinais (preconceito, falta de conhecimento, o medo do desconhecido, a invisibilidade, etc.). Uma equipe da UFMG desenvolveu uma carteira universal que se adapta às mesas escolares e que já começarão a serem utilizadas pelos alunos mineiros: mais um grande avanço. Na minha época de CEFET e de faculdade, escrevia em cima do meu fichário, apoiado nas pernas, já que não tinham carteira. Hoje, mesmo que alguns não sigam os ensinamentos na prática, os professores recebem mais treinamento para lidar com as diferenças. Minha primeira professora era totalmente despreparada. Sempre me deixava sozinha na sala durante o recreio, nunca me deixava ir ao parquinho e, ainda por cima, sempre me esquecia pra trás, no escuro, quando acabavam as apresentações no cinema da escola. Nos meus primeiros anos de escola, fui vítima de bullyng e nem sabia que isso existia. Vários meninos puxavam meus cabelos, chutavam minhas pernas, ameaçavam levantar minha saia e também roubar minhas bengalas… Eu era um ET na sala de aula e os professores nunca mudaram isso. Sofri muito nesses primeiros anos escolares. Em compensação, em seguida, consegui me sobressair sendo uma excelente aluna, com direito a ganhar menção honrosa no CEFET e 5 destaques acadêmicos na PUC.
Alguns antagonismos ainda persistem. A Lei de Cotas obriga as empresas com mais de 100 funcionários a contratar deficientes, mas muitas vagas ainda estão desocupadas. A escolaridade da grande maioria dos deficientes ainda é baixa. De uns tempos pra cá, está melhorando muito, já que as escolas estão se tornando acessíveis e os meios de transporte também. O ensino à distância também colaborou para isso. Para terem uma idéia, trabalho em uma empresa com cerca de 80.000 empregados, dos quais apenas 500 possuem alguma deficiência. Conheço alguns deficientes que se aposentaram por invalidez e que não buscam um emprego com salários mais altos com medo de perder esse direito. Alguns não querem estudar, não trabalham e também não praticam esportes. Uns vivem de esmolas e de pequenos favores de amigos e familiares.
Se compararmos a situação atual com a década passada, nunca estivemos num momento tão bom! Os obstáculos e o preconceito estão se reduzindo gradativamente. Mas, ainda assim, uma parcela das pessoas com deficiência vive acomodada em sua zona de conforto. Não se arriscam e partem para esse mundo tão maravilhoso que vivemos. Querem que as coisas caiam dos céus. Tudo é difícil, é complicado… Sempre gostei muito de uma música do Lulu Santos que diz que viver a vida assim, sem aventura, é tolice. Concordo plenamente. Dá medo sair da zona de conforto. Mas, enfrentar o mundo é muito gratificante. Tenho vários amigos deficientes que são pró-ativos. Que arregaçam suas mangas e fazem a diferença no mundo. Aos poucos, a vida nos ensina como engolir sapos, aceitar as coisas sem se acomodar, a matar um leão por dia na luta por nossos direitos… No final das contas, ninguém tem a garantia que a vida será fácil; as dificuldades fazem parte desse aprendizado chamado vida.
Nosso país já consolidou sua posição de potência nos esportes paraolímpicos. As competições nacionais estão crescendo e trazendo várias possibilidades para as pessoas com deficiência. Recentemente, tivemos as Paraolimpíadas Escolares em São Paulo. Esse evento reuniu jovens atletas, estudantes de vários estados, para competir em diversas modalidades esportivas. Durante uma semana, esses jovens puderam mostrar todo seu talento esportivo, conhecer e fazer novos amigos, numa grande troca de experiências. O CPB (Comitê Paraolímpico Brasileiro) tem feito um trabalho de base bem interessante. Com certeza, o País fará bonito nas Paraolimpíadas do Rio. O esporte adaptado está muito mais acessível e seus benefícios para as pessoas com deficiência são inquestionáveis. Particularmente, acho o esporte viciante! É uma delícia, só lamento tê-lo descoberto tão tarde. Os médicos sempre me sugeriram nadar, mas só fui encontrar uma academia em 2007. Sempre fechavam as portas para mim. Meu técnico comentou comigo ontem sobre essa evolução. Ele sempre ministra cursos/palestras e fica surpreso com a reação de educadores físicos mais antigos ao verem vídeos de tetraplégicos nadando. Na época em que se formaram, isso era uma utopia.
Citei em um dos meus textos que não existiam motéis adaptados em BH. Minha amiga Telma, do blog BHLEGAL, me disse que existe um na Cidade Nova. Ainda não fui conhecê-lo, mas pelas fotos do site, parece bem legal. Felizmente, os diversos estabelecimentos comercias começam, cada vez mais, a nos enxergar.
Enfim, o caminho a ser percorrido ainda é longo, mas, sem sombra de dúvidas, estamos na direção correta!