Cadeirante relata a experiência de conhecer o Instituto Inhotim na região metropolitana de BH.
Adriana Lage.
Brumadinho, 01/06/2010.
No último final de semana, fui conhecer o Instituto Inhotim, em Brumadinho/MG, região metropolitana de Belo Horizonte. Trata-se de um grande espaço cultural que recebe grandes obras de arte contemporânea e também de um riquíssimo acervo botânico.
O Instituto é enorme e fica situado em uma propriedade particular. Os jardins são maravilhosos e tiveram a colaboração do paisagista Burle Max no início do projeto.
O visitante paga R$ 16,00 para conhecer o Inhotim. Idosos e estudantes pagam meia entrada.
O Inhotim é bem acessível para deficientes físicos. Ao longo do Instituto, existem vários banheiros adaptados e rampas. Existe a opção de contratar um carrinho para conhecer o ambiente. O preço por pessoa é de R$ 10,00. Pessoas com dificuldade de locomoção não pagam pelo serviço e têm direito a um acompanhante também gratuito. Preferi conhecer o Inhotim com minha cadeira de rodas motorizada, já que o carrinho só passa em algumas rotas.
O passeio foi muito divertido! O lugar é realmente lindo e inspirador. Além de lagos, peixes, aves, plantas variadas, existem várias galerias e obras de arte espalhadas pelo caminho. O visitante precisa andar atento para não perder nada! Por exemplo, gostei muito da obra Tunga, que fica no meio de um gramado. A Galeria da Adriana Varejão não é 100% acessível. Para chegar à parte de cima, é preciso subir uma escadaria.
O Instituto conta com um restaurante maravilhoso, um café cheio de rampas e banheiro acessível, área de cachorro quente (uma grande mesa rústica ‘perdida’ no meio das árvores! O cachorro quente é delicioso), omeleteria, lanchonetes, lojinha, etc.
Em uma das galerias, o visitante precisa entrar sem os sapatos. Trata-se de um quarto todo vermelho! Tapete, paredes, geladeira, mesas, televisão, passarinho roupas, peixes, alimentos… Tudo vermelho. Como a cadeira de rodas ocupa muito espaço, a monitora me pediu para entrar na galeria apenas com mais uma pessoa. Assim, pude apreciar tudo tranquilamente.
Fiquei com medo de esbarrar minha cadeira em obras de arte de algumas galerias. Os artistas brincam muito com a luminosidade. Em algumas salas, é um verdadeiro breu. Muito interessante a sensação.
Uma das galerias que mais gostei foi uma sala toda branca, bem grande, onde se escuta sons de trovão, chuva, vento… Não resisti e sai correndo com a cadeira – uma sensação de liberdade bem grande!
Passei quase 4 horas rodando pelo Inhotim. No final, fiquei bem cansada. Algumas partes do caminho são feitas de pedras bem irregulares. Nunca sacudi tanto na cadeira de rodas. Em algumas rampas mais íngremes, precisei de ajuda para não correr o risco de empinar a cadeira de rodas – turismo de aventura!
Acredito que ir de cadeira de rodas manual ao Inhotim seja muito cansativo e desconfortável. Mas motorizada, vale a pena!!
O site do Inhotim é www.inhotim.org.br . Vale à pena dar uma espiada nesse paraíso! Para mim, o melhor de tudo foi saber que os criadores dessa maravilha não se esqueceram da acessibilidade! Pude aproveitar a visita como qualquer outro visitante.
A opinião de uma cadeirante sobre a acessibilidade da capital mineira.
Adriana Lage.
Nos últimos dias, resolvi prestar mais atenção na acessibilidade em alguns lugares de Belo Horizonte. Em muitos deles, movimentar-se em uma cadeira de rodas é sempre uma aventura radical.
A Prefeitura de Belo Horizonte, juntamente com a Coordenadoria dos Direitos dos Deficientes, e outros órgãos, promoveram uma revitalização do centro da capital. As calçadas ganharam rebaixamento e sinalização tátil. Ainda não temos semáforos sonoros como os existentes na orla de Maceió, mas as melhorias foram gritantes. Em 1997, fiz um curso de programação no centro. Era caótico andar pelas ruas. Além das calçadas não possuírem rebaixamento, eram cheias de camelôs. Era preciso pedir licença e contar com o bom senso – quase sempre em falta! – e boa vontade dos pedestres. O espaço para circulação da cadeira era tão reduzido que fui desviar de um cego e acabei atropelando a bengala dele. Minha mãe tinha que me empurrar, pelas ruas, dividindo espaço com os carros. Nos dias de chuva, então… caos total!!
Hoje em dia, o centro está muito mais acessível. Pena que em alguns lugares, como a esquina da Avenida Amazonas com a Rua São Paulo, as rampas não sigam a acessibilidade. Nesse lugar, a rampa é muito íngreme. Andar pelas calçadas ainda é um desafio. Por exemplo, no quarteirão das Lojas Americanas da Rua São Paulo, a calçada está esburacada há meses. Os buracos são enormes. A alternativa mais viável é dividir o asfalto com os carros e motos. Só que existem vários estacionamentos de motos. Infelizmente, os motoqueiros param em fila dupla e quase atropelam o cadeirante.
O principal problema que encontro no centro é a falta de educação dos pedestres. As pessoas sempre me atropelam. Outras vezes, entram na frente da cadeira de rodas, de uma hora para outra, sem dar tempo para o cadeirante evitar o atropelamento. Quando paro nos sinais para atravessar, sempre sou ?engolida? pela multidão e levo várias bolsadas e cotoveladas.
Muitas lojas da região central ainda possuem degraus na entrada. Em algumas galerias e restaurantes, o acesso é praticamente inviável para cadeirantes – inúmeros degraus em um espaço pequeno. Não cabe nenhuma pessoa ao lado da cadeira.
Pesquisei vários restaurantes na região da Praça Sete e só encontrei um com acesso facilitado. Existem escadas para o segundo andar, mas o cadeirante pode ficar no primeiro piso, onde temos as comidas, bebidas, os caixas e banheiros. Os demais possuem escadas na entrada e o local para circulação muito reduzido. Algumas vezes, para o cadeirante passar, é preciso tirar todo mundo do lugar, arrastar mesas, etc.
No Barro Preto, bairro famoso por ser o pólo da moda, já encontramos calçadas rebaixadas e rampas em algumas lojas. Vale ressaltar que ainda não encontrei nenhuma loja que venda roupas adaptadas/acessíveis em BH.
Na região da Avenida Silviano Brandão, considerada o pólo dos móveis, só encontrei uma calçada rebaixada na proximidade do supermercado. Nas demais esquinas, não vi nenhum rebaixamento, piso tátil ou sinal sonoro. A avenida é cheia de lojas de móveis e topa-tudo. Quase todos os estabelecimentos possuem degraus na entrada. Se uma loja de móveis já não é acessível na entrada, duvido que disponha de móveis adaptados. Vou reformar uma área da minha casa e, provavelmente, passarei longe da Silviano Brandão na hora de comprar móveis.
Antigamente, os degraus e escadarias eram utilizados para proteger tesouros como as Pirâmides do Egito, deixar os homens mais próximos dos deuses como na Grécia Antiga, afastar e dificultar o acesso de inimigos ou ostentar riqueza. Hoje em dia, todos esses significados perderam o sentido. Mesmo com o Decreto Lei 5296/2004, que estabeleceu as normas de acessibilidade, os degraus continuam impedindo que pessoas com dificuldade de locomoção realizem suas compras, se divirtam, estudem, etc. Quando estou em minha cadeira de rodas motorizada, nunca entro em estabelecimentos que possuem degraus. É extremamente desconfortável para mim e pesado para quem carrega a cadeira (70 kg só de cadeira!!).
Fiz uma pesquisa telefônica, bem informal, em 10 motéis da capital. Queria localizar um em que não precisasse subir escadas. Apenas em um deles, que fica próximo ao BH Shopping, a funcionária disse possuir acesso. Na verdade, o quarto não é adaptado, apenas possui portas largas e fica no nível do estacionamento. Nos outros nove, todos possuíam escadas e não tinham adaptações; Li uma matéria sobre isso na Revista Sentidos, se não me engano. Em uma pesquisa realizada, foram localizados apenas 6 motéis adaptados em todo Brasil, sendo dois em Uberlândia/MG. Um absurdo essa situação. Entrei em contato com o Ministério Público daqui e me disseram que a prioridade são as instituições de ensino, bares, restaurante e casas de espetáculos. Os demais estabelecimentos, tais como motéis, academias de ginástica e clínicas de fisioterapia, serão fiscalizadas na medida do possível.
Em várias igrejas católicas de BH, é possível trocar as escadarias da entrada por rampas nas laterais da igreja. Mas, desconheço igreja em que o cadeirante possa chegar até o altar. Um dia desses, fui fazer a Primeira Leitura e tive que ficar no meio do caminho. O microfone é que veio ao meu encontro. Fico me perguntando: e se uma cadeirante quiser se casar na igreja?? Se isso um dia acontecer comigo, vou querer tudo o que tenho direito: desfilar pela igreja, subir ao altar, etc… Acho que as Igrejas ainda são excludentes em relação aos deficientes. No ano passado, fui batizar minha afilhada em uma igreja no Maria Gorete. Achei muito interessante o momento da pia batismal. Além de ser emocionante o momento, fiquei encantada com o padre. Como eu não daria altura de carregar a neném, ele pegou uma bacia de metal que fica dentro da pia e colocou no meu colo e realizamos o batismo da mesma forma. Criatividade e boa vontade sempre superam obstáculos.
Gosto muito de passear na Avenida Silva Lobo. Dias atrás, fui a um Pet Shop comprar o enxoval para minha cachorrinha mais nova. Resolvi voltar pelo canteiro do meio, já que a avenida é muito movimentada e nas extremidades o passeio é irregular. Sem falar na ocupação indevida das mesas e clientes dos bares nas calçadas. No meio do caminho, me deparei com um vendedor de CDs piratas. A mercadoria estava espalhada pelo chão. Se eu tentasse passar com a cadeira motorizada, provavelmente, passaria por cima de alguns CDs. Pedi a ele, educadamente, que retirasse a primeira fileira de CDs para que eu pudesse passar. O vendedor criou caso e queria que eu passasse pela rua de todo jeito. Falei que não passaria, pois o degrau é altíssimo e a avenida é muito movimentada e perigosa. Com muito custo e muita má vontade, ele retirou a 1ª fileira, mas ficou falando que se eu estragasse qualquer coisa, teria que ressarci-lo. Quando passei, ele me disse que da próxima vez, me cobraria. Falei que aquilo não era lugar de colocar mercadoria e que, da próxima vez, caso ele criasse caso, voltaria com o fiscal da PBH. Fico indignada com esse tipo de gente. Pago para não brigar, mas se pisam no meu calo…
Há 3 anos freqüento uma academia próxima a minha casa. Ela é cheia de escadas, mas, ainda assim, é a mais viável para mim. Já conversei algumas vezes com o dono sobre acessibilidade. Ele sabe do problema, tem conhecimento que está errado, pois reformou a academia recentemente e não mexeu com acessibilidade. Já viu outros clientes reclamando, e não faz nada.
Esses são apenas alguns exemplos de como a capital mineira ainda precisa melhorar em matéria de acessibilidade. Infelizmente, o desrespeito ainda é grande. No meu dia a dia, sempre me deparo com escadas, calçadas e ruas esburacadas, preconceito velado, carros estacionados em vagas reservadas para deficientes ou estacionados nas rampas, etc.
Entre os dias 18 e 28 de setembro próximos, a capital receberá mais uma edição da Semana da Pessoa com Deficiência, evento realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte, através da Secretaria Municipal Adjunta de Direitos de Cidadania (SMADC), por meio da Coordenadoria de Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência (CDPPD).
Em sua décima sétima edição, o evento, que conta com o apoio de vários parceiros, quer mostrar a necessidade de acelerar o processo de inclusão de pessoas com deficiência, além de destacar as suas capacidades, potencialidades e habilidades, através de conquistas no âmbito político e social, convidando à ações e reflexões acerca do processo de inclusão.
A Semana da Pessoa com Deficiência integra o Calendário Oficial de Eventos do Município, e nestes 17 anos teve como objetivo dar visibilidade ao segmento na sociedade brasileira tradicionalmente tido como invisível ou excluído.
A Secretaria Municipal Adjunta de Direitos de Cidadania está empenhada na participação do Poder Público junto aos diversos segmentos populacionais e sociais, apoiando iniciativas individuais e de grupo das pessoas com deficiência que buscam romper limitações e desafios. A programação da 17ª Semana se inicia com a III Mostra Mineira de Arte, Inclusão e Cidadania e com o Seminário “Educação Inclusiva: Construíndo Possibilidades”, e contará com feiras de artesanato e tecnologia assistiva, apresentações artísticas e esportivas, com todas as atividades abertas à população.
Informações e inscrições.
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte.
Secretaria Municipal Adjunta de Direitos de Cidadania-SMADC.
Coordenadoria de Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência-CDPPD.
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CEP: 30160-030.
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