Cresce o número de pessoas com deficiência no mercado de trabalho mineiro, com apoio do Caade.
“Sempre procurava emprego e parava no processo seletivo. As pessoas com deficiência precisam procurar o lugar certo. Não podem desistir nem se deixar abater”. Quem afirma é a digitadora Vanilda Batista Ferreira, de 27 anos. Ela é uma dos 167 trabalhadores com deficiência que foram colocados no mercado de trabalho pela Coordenadoria de Apoio e Assistência à Pessoa com Deficiência (Caade ) nos quatro primeiros meses de 2010. O número representa um aumento de 16% quando comparado ao do mesmo período do ano anterior – 144 profissionais.
Vanilda ficou desempregada por dois anos, e não foi admitida em vários empregos por causa do exame de audiometria, que indicava deficiência auditiva parcial . Foi na Caade, em Belo Horizonte, que ela encontrou uma oportunidade para crescer na área da ciência da computação.
Cadeirantes e demais deficientes contam com apoio em BH para procurar emprego.
O coordenador da Caade, Flávio Oliveira, conta que o local vem aprimorando a capacitação do público deficiente, oferecendo o curso de competências básicas para o trabalho e atendendo em pequenos grupos ou até mesmo individualmente. “Isso aumenta a confiança das pessoas, bem como as chances de a pessoa ter der um melhor desempenho na hora da entrevista”, diz Flávio. Outro aspecto oferecido na Caade é a capacitação das empresas por meio de palestras. “As instituições se mostram mais confiantes na possibilidade de empregar”, ressalta.
Vagas.
No momento, a Caade oferece 164 vagas, os trabalhadores podem acessar as oportunidades no portal do SINE <.
Os interessados devem se inscrever na rua da Bahia, 2.200, Bairro Lourdes.
Telefone (31) 32 92-23 48.
De segunda a quinta-feira, são oferecidos cursos de competências básicas para o trabalho; elaboração de currículo; ética profissional e condução do seu próprio destino; direitos básicos da pessoa com deficiência, entre outros.
Para eles, a cadeira de rodas passou a ser extensão do próprio corpo e, após o impacto inicial, a adaptação se faz com um único propósito: o de viver a vida.
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Daniel de Cerqueira / Agradecimento Praia Clube, Nélio Rodrigues, Marcos Rosa e SXC.
“Seria inaceitável me render à deficiência e parar no tempo”. Letícia Ferreira, nutricionista e nadadora. Ficou paraplégica depois de acidente de carro. Mora em Uberlândia.
Mostram a cara e as rodas mundo afora. Vivem aí na sua singularidade, como qualquer um da espécie humana, com seus problemas, alegrias, afazeres, corre-corre. Igualados para grande parte das pessoas que os veem na sua deficiência física: paraplégicos, tetraplégicos, num estigma de tristeza, sem mais nem menos. Agora, iluminados, focados, pinçados da multidão com a personagem Luciana, irreal, cópia do que ocorre fora das telas, repetidos em tantos acidentes, na novela Viver a Vida. Do lado de cá, com seus toques bem reais, depois de digerir a falta de sensibilidade nas pernas e tronco, dependendo do grau de lesão na medula, intrometida no meio da vida sem aviso prévio, reinventam-se, regeneram-se. Se faltam as pernas, há a extensão da cadeira de rodas, se as mãos não fazem o que querem, há a fala, se o sexo não é do mesmo jeito, há a visão, se não controlam intestino e bexiga, há como re-educá-los a trabalhar em horários determinados.
“Meu instinto de sobrevivência não me deixava abater. Sempre fui muito ativa, seria inaceitável me render à deficiência e parar no tempo”, diz a nutricionista e nadadora Letícia Ferreira. Sublimou a paralisia, frequenta lugares que têm ou não adaptação, treina, participa de competições, trabalha, faz as tarefas de casa, compras, vive sozinha. “Divirto-me com meu cachorro, descanso o corpo e a mente saindo para jantar, dançar, escutar músicas boas.” Nada diferente de quem tem o físico com todos os sentidos, num processo que não é instantâneo de uma hora para outra, no virar de páginas, há as nuances do ser humano: digerir a fatalidade de um dia estar bem e no outro não sentir as pernas. “No primeiro momento há perda muito grande, ficam atordoados, não acreditam mais em Deus. Depois apaziguam essa dor, começam a buscar uma saída de acordo com a realidade da vida”, analisa o psicanalista Adilson de Aguilar.
“Não tive nenhum arranhão. Só quebrei a coluna”. Fellipe Rodrigues Lima, universitário. Caiu do parapeito da casa de um amigo. Mora em BH.
É o que o mundo apresenta, o jeito é se metamorfosear. Antes do dia em que dormiu e caiu do parapeito da casa de um amigo, o universitário Fellipe Rodrigues Pereira Lima praticava esportes radicais: de surfe a skate. Aí veio a paraplegia, depois a descoberta da descida de corredeira, caiaque-surfe, mergulho livre, pesca submarina, triciclos. O radical se manteve em sua vida, transferido dos pés para as mãos. “Reaprendi a viver. Não adianta voltar atrás. Retiro experiências com o passado, vivo o presente e vou construir o futuro,” diz. Do que se foi, as fotos das manobras radicais de skate, de agora, a faculdade de gestão empresarial, o namoro, o trabalho, a fisioterapia, o cachorro, a busca por patrocínio para a canoagem, o dia-a-dia rotineiro. Morou seis meses na Flórida, nos Estados Unidos, três deles sozinho e se prepara para a temporada de 90 dias na Austrália. “Minha ideia é viver dos esportes radicais, seja como competidor ou investidor.”
O radical porque, no seu entender, é vida. O que é mais difícil? “Meu maior inimigo são as escadas”, afirma Fellipe Rodrigues Lima. O resto se adaptou, depende dele, dirige seu carro, vai-e-vem sem grandes obstáculos, a não ser os degraus que sempre brotam à frente neste mundo feito para os que têm as pernas em pleno funcionamento. Segue com a vida, como deve ser. “A tarefa é aprender a viver com o que se tem. Tanto no que se refere ao corpo e funções não comprometidas, quanto os recursos que se obteve ao longo do desenvolvimento e experiências”, diz o psicólogo Luiz Carlos Avelino da Silva, professor de pós-graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
“Tudo que faço hoje é verbal”. Mara Gabrilli, vereadora de São Paulo. Há 15 anos o carro em que estava despencou 15 metros e ela ficou tetraplégica.
A vereadora Mara Gabrilli, de São Paulo, vive da fala, o que nem isto conseguia logo depois do acidente de carro que a deixou tetraplégica, como Luciana, a personagem da atriz Alinne Moraes. “Não saía som, vivia entubada, estava muito mal. Fui me defendendo, não tive tempo para pensar na deficiência. Minha luta era pela vida.” Recuperou a fala, não os movimentos de braços e pernas. Precisa de ajuda para tudo, teve de repaginar a sua vida. “O que faço é verbal.” Entoa a voz na defesa dos deficientes, da acessibilidade à remoção do estigma de tristeza carimbado nas cadeiras de rodas, foi secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da capital paulista, fez fotos sensuais e campanha de lingerie.
“Sou mulher cadeirante e daí?”, diz Mara. Sempre se preocupou com o corpo e depois do acidente a atenção aumentou. “A vaidade é até mais interna, visceral.” É a luta para controlar o funcionamento dos órgãos afetados com a paralisia do tronco para baixo. Vai além do que se passa na novela, da doente maquiada, do que se pode imaginar, mas nada que paralisa a vida: aí está a vereadora. “Minha mãe está irritada com a novela, reclama: como a Teresa fala que a Luciana vai ficar inválida?”
Cada um reage de forma diferente quando se depara com a tetraplegia e paraplegia. “Eu não gosto de pensar isso como capacidade natural ou força de vontade da pessoa, como se imagina comumente e como fica bonito na novela. Isto aponta a recuperação e superação como prêmio aos fortes e não é bem assim”, afirma Luiz Carlos Avelino. Inclui um monte de gente: médicos, psicólogos, educadores físicos, fisioterapeutas, família, amigos. “Reinventar-se é algo social, que se constrói com a ajuda do outro na descoberta de novas possibilidades e recursos.”
“Passou uma vez rápida a ideia de suicídio. Hoje encaro a vida numa cadeira de rodas”. José Wan Der Maas de Souza Júnior, jogador de basquete. Acidente de moto.
Há de se contabilizar esforços de todos. O jogador de basquete José Wan Der Maas de Souza Júnior chegou a pensar em suicídio: o acidente de moto em Carlos Chagas, no Vale do Mucuri, uma semana inconsciente, depois acordar num hospital em Belo Horizonte, rodeado de médicos. “Fiquei sem entender, estava imóvel, percebi que não mexia as pernas.” Conscientizou-se do que havia acontecido, a busca pela reabilitação, o contato com o mundo antes nem pensado da deficiência, a colaboração de amigos e família. “Eles me ajudaram muito.” Viu que queria continuar nessa vida, achou força física e psicológica no esporte. Hoje está no time da Associação Mineira de Paraplégicos. “O basquete é parte de mim.”
Mora sozinho, lava roupa, faz comida, vira-se. O difícil é mudar a temperatura do chuveiro, tão distante das mãos, e o receio de uma frigideira cair no seu colo quando for preparar a refeição. “Uso mais a inteligência do que a força”, diz Júnior. Redescobriu-se nestes quatro anos e meio após a queda da moto. “A pessoa se adapta, busca saída, senão enlouquece”, lembra o psicanalista Adilson de Aguilar, que trabalha com deficientes. Como acontece com qualquer um, mesmo com todas as funções do corpo. A vida tem de ser preenchida.
“Antes eu atropelava a vida, não vivia”. Nardélio Fernandes Luz, escritor. A tetraplegia veio depois de um mergulho no rio. Mora em Uberlândia.
Quando mergulhou no rio e de lá saiu tetraplégico, o funileiro Nardélio Fernandes da Luz tinha 31 anos e muitas histórias para contar. “Tive sorte porque quando fiquei deficiente estava com a cabeça feita”, diz. Percebeu que podia escrever, o que fazia antes espaçadamente por falta de tempo, e resolveu publicar o livro autobiográfico Vida após a Vida. A dele que mudou por completo, com meses de recuperação, dependência para as necessidades básicas. “Isto é o mais difícil. Quem cuida do tetraplégico vive duas vidas: a sua e a da pessoa.” Divide com a mãe, senhora de 73 anos, e as irmãs. O resto vai bem, sem os movimentos das pernas, das mãos e parcialmente dos braços. “A vida não é melhor hoje, mas é feliz. Antes eu a atropelava, não vivia”, afirma o escritor e ganhador da medalha de prata no campeonato de bocha adaptada. É, ele joga também, sai, já teve três namoradas depois do acidente, mostra que é capaz e muito, de levantar a bandeira contra o preconceito de que são incapazes, assexuados, coitadinhos. “As pessoas têm a mania de querer ajudar, quem precisa aprender é o próprio deficiente.” Estão aí como qualquer um, com seus problemas, com seus desejos. “O sonho primário do paraplégico é andar e do tetraplégico é ser paraplégico”, diz Nardélio.
Nem sempre, a vida encarrega-se de transmutar sonhos. A nadadora Letícia Fernandes garante que não é o dela, torce para que as pesquisas com células-tronco ajudem os deficientes físicos, mas não tem a pretensão de voltar a andar. “Não sei se me adaptaria, porque houve mudanças no meu corpo. Bastaria a mim poder experimentar novamente algumas sensações como a textura da terra, da grama, da cerâmica fria ou do asfalto quente.” Não há novela tão emocionante quanto a vida é, bruta, lapidada, sensível, real, aí para ser encarada de frente, de cadeira de rodas.
Lesões medulares
Paraplégico.
A medula é lesionada em nível lombar ou toráxico. Perde a sensibilidade das pernas, mantém o controle do tronco e movimentos dos braços e mãos.
Tetraplégico.
A lesão ocorre próximo ao pescoço. Perde a mobilidade total ou parcial de braços, pernas e tronco. Há os que ficam totalmente paralisados e dependem de respiração artificial.
Quando mais ocorre:
- Acidentes de carros;
- Ferimentos por arma de fogo;
- Queda;
- Mergulho em águas rasas.
O que querem:
- Portas mais largas;
- Rampas de acesso ou elevadores;
- Balcões de recepção e caixas eletrônicos mais baixos;
- Respeito às vagas reservadas a deficientes nos estacionamentos;
- Vê-los como pessoas normais, não coitadinhos;
- Não os ajudarem, só quando pedirem.
Projetos para melhor locomoção de deficientes serão debatidos no 2º semestre entre a PBH e a população.
Elemara Duarte – Repórter.
No Mineirão, portadores de necessidades especiais precisaram de ajuda nas escadas.
Guias para atender deficientes visuais quando chegam e saem de pontos culturais, e, para os surdos, textos explicativos impressos e intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Para idosos e cadeirantes, melhoria de acessibilidade de calçadas, por meio da instalação de rampas na Área Hospitalar e nos bairros.
Cardápios com letras maiores nos restaurantes e, ainda, nos nacionalmente famosos botecos, banheiros adaptados. Esses são alguns desafios de acessibilidade a serem superados pela capital mineira para receber turistas com necessidades especiais na Copa de 2014. As sugestões foram citadas por alguns integrantes de entidades representativas que deverão compor, no próximo semestre, comissões para que a Prefeitura possa debater os projetos da Copa.
Algumas dessas sugestões coincidem com as primeiras impressões sobre acessibilidade de um grupo de três deficientes e um idoso que visitou Belo Horizonte nos últimos quatro dias. Eles avaliaram vários pontos turísticos, como a Casa do Baile, a Praça da Liberdade, o Museu de Artes e Ofícios e restaurantes. Nesta segunda-feira (10), foi a vez do Mineirão.
Eles fazem parte do Projeto Novos Rumos, do Instituto Muito Especial, do Rio de Janeiro. De acordo com a produtora do projeto, Thelma Vidales, as observações estão sendo feitas e, depois, será traçado um diagnóstico, com sugestões de ações. Ela adiantou, por exemplo, que em algumas travessias há rebaixamento apenas de um lado. “Em alguns caminhos táteis, os pisos diferenciados terminam em um obstáculo, como uma árvore”, cita.
A falta de rebaixamentos, ou rampas, é considerada um problema pelo cadeirante e técnico da equipe de basquete da Associação Mineira de Paraplégicos, Elizeu Ferreira da Silva. “Elas nem sempre estão dentro do padrão, assim como as calçadas são mal cuidadas nos bairros e na Região Hospitalar”, diz. No Hipercentro, no Mercado Central, na Orla da Pampulha e, até mesmo no Mineirão, ele considera que o acesso é bom, graças a obras mais recentes.
“Tivemos dificuldades para encontrar um restaurante com banheiros acessíveis”, acrescenta Thelma. E quando o visitante é idoso, o problema, além da falta de rampas, são os cardápios com letras minúsculas, segundo a presidente da Associação dos Clubes da Melhor Idade de Minas Gerais, Rita Félix Eugênio, 72 anos.
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-MG), Paulo Nonaka, diz que a entidade estuda a viabilidade de alguns projetos para solucionar essas questões, assim como a comunicação com os clientes especiais.
Thelma Vidales ressalta, no entanto, que BH tem locais exemplares, como é o caso do Museu de Artes e Ofícios. “É o melhor entre todas as capitais que visitamos. Tem acessibilidade para qualquer tipo de deficiente, incluindo intérpretes para libras, que é mais raro”, destaca.
Segundo o presidente do Comitê Executivo das Copas pela PBH, Tiago Lacerda, na última semana foi apresentado o Planejamento Estratégico para a Copa. “Os programas ainda não foram detalhados, mas, em todos, vamos levar em conta a questão da acessibilidade”, garante. Lacerda adianta que serão montadas câmaras temáticas para discutir os projetos com a sociedade organizada a partir do próximo semestre.
Fonte:Hoje EM DIA disponível em 16/05/2010.