Estão abertas até o dia 31, as inscrições para o Programa de Capacitação para o Trabalho de Pessoas com Deficiência e Reabilitados pelo INSS, promovido pelo Núcleo de Direitos Humanos e Inclusão da Pró-reitoria de Extensão (Proex).
Divulgação.
O objetivo é capacitar pessoas com deficiência (física, auditiva, visual, intelectual e/ou múltipla) e reabilitados pelo INSS, prioritariamente de baixa renda, para a inclusão no mercado de trabalho.
Os cursos são ministrados nos campi e unidades no Coração Eucarístico, Barreiro, Contagem, Betim, São Gabriel e Praça da Liberdade. Podem se candidatar pessoas portadoras de deficiências, que tenham idade igual ou superior a 16 anos.
As inscrições poderão ser feitas das 8h às 12h e das 13h às 17h, no Núcleo Direitos Humanos e Inclusão – Pró-reitoria de Extensão (av. Dom José Gaspar, 500, prédio 30) ou pelo telefone (31)3319-4082.
Cursos oferecidos:
- Informática básica (Domínio de Teclado, Windows, Writer, Calc. e Internet) (São Gabriel – tarde e Betim – tarde)
- Informática básica, acessível para pessoas com deficiência visual (NVDA: domínio de teclado, Windows, Writer, Calc. e Internet) (Praça da Liberdade – tarde, Barreiro – manhã e Betim – tarde)
- Auxiliar administrativo com ênfase no atendimento ao público (Praça da Liberdade – manhã, Contagem – tarde e Barreiro – tarde)
- Auxiliar administrativo com rotinas informatizadas (Coração Eucarístico – manhã e Betim – tarde)
- Vivência de formação profissional em auxiliar de jardinagem (Coração Eucarístico – manhã e Betim – tarde)
- Vivência de formação profissional em auxiliar de limpeza institucional (Contagem – tarde e Betim – tarde)
- Massagem terapêutica e drenagem linfática (Praça da Liberdade – manhã e Betim – tarde)
- Inclusão digital (São Gabriel – tarde, Contagem – tarde e Betim – tarde)
- Introdução à cidadania e direitos humanos (Praça da Liberdade – manhã e Betim – tarde)
- Pedreiro (Coração Eucarístico – tarde)
- Artesanato com recicláveis e produtos naturais (Coração Eucarístico – manhã e Betim – tarde)
- Noção básica para concurso – Português, Direito, Ética e Informática (Praça da Liberdade – manhã)
- Manutenção microcomputador (Barreiro – tarde)
Nessa semana, Adriana Lage conversa sobre fisioterapia e deficiências com Cybelle Varonos, colaboradora do blog Deficiente Alerta.
Adriana Lage
O texto de hoje fala sobre uma das profissões que considero mais belas e importantes nesse mundo: o fisioterapeuta. Querendo ou não, quase todo mundo precisa desse profissional pelo menos uma vez na vida. Muitos tratam suas enfermidades temporárias (um estiramento causado por uma bola mal dividida na pelada de domingo com os amigos, a recuperação dos movimentos de um braço quebrado durante uma queda, uma tendinite causada por horas de navegação na internet, etc). Outros, como eu, que possuem alguma deficiência permanente, não conseguem se imaginar longe desses profissionais. Querendo ou não, eles se tornam nossos amigos, incentivadores e até nossos confidentes. Vibram com nossas vitórias e nos apóiam nos momentos mais difíceis. Como faço fisioterapia desde pequenininha, sempre tive contato com fisioterapeutas. Eu me lembro que foi um fisioterapeuta da Associação Mineira de Reabilitação quem me ensinou a amarrar os sapatos. Juntas há quase dois anos, atualmente, devo grande parte da minha mobilidade a minha fisioterapeuta Ana Luisa. Foi ela quem me ensinou que uma tetraplégica também tem bumbum e cintura que podem nos auxiliar, e muito, no dia a dia. Graças ao giro do bumbum, não tenho me afogado mais quando nado peito cansada ou com frio. Nossas sessões são sempre movidas a muitos risos e casos. Mas não se enganem pensando que ela me dá moleza. Sempre trazendo alguma novidade, morro de medo quando ela me diz que teremos surpresas no dia… Quando possível, trocamos as sessões em casa pela piscina da academia. É gostoso demais fazer hidroterapia… Qualquer dia escreverei sobre isso.
Para ilustrar bem a importância desse profissional, conversei com a fisioterapeuta Cybelle Varonos. Ela tem 43 anos, mora em São Paulo/Capital e é daquelas pessoas que os olhos brilham quando falam sobre suas paixões, incluindo aí o trabalho. É também colaboradora do blog Deficiente Alerta.
Cybelle é um doce de pessoa!
Adriana Lage: Você é fisioterapeuta. Para mim, exerce uma das atividades mais nobres ao ajudar aos outros, trazendo esperança de dias melhores e de mais qualidade de vida. De onde surgiu a vontade de ser fisioterapeuta?
Cybelle Varonos: Nesse ano, completo 20 anos de formada! Por incrível que pareça nunca pensei em exercer outra profissão; naquela época não era uma profissão muito divulgada, poucas faculdades, mas eu não tinha nenhuma dúvida. Não sei precisar o momento exato da escolha, mas sei que foi bem antes de entrar na faculdade. Era muito pequena e sempre queria ajudar, conhecer as pessoas. Na escola, se uma criança quebrasse o pé e não descesse para o intervalo, eu ficava junto, desde aquela época não acreditava em deficiências.
AL: O fisioterapeuta é valorizado em nosso país?
CV: Hoje em dia, a profissão é mais conhecida e o campo de atuação também ampliou muito, por isso talvez haja mais respeito, mas continua sendo um profissional com baixa remuneração; os convênios têm grande dificuldade no reajuste das terapias. Mas, eu acredito que seja uma profissão de futuro, porque trabalhamos com o “TOQUE” e isso jamais será substituído por uma máquina.
AL: Como cadeirante, tenho visto várias clínicas de fisioterapia sem acessibilidade e também me deparado com profissionais pouco qualificados para lidar com lesões na medula. Em São Paulo, existem muitas clínicas adaptadas? E profissionais capacitados?
CV: Eu não trabalho com Lesão Medular exatamente, desde formada meu maior foco é a Ortopedia, mas sei do trabalho da Rede Lucy Montoro e de alguns projetos bem interessantes aqui em SP. No ano passado estive em Brasília e conheci o Hospital da Rede Sarah: fiquei maravilhada, realmente primeiro mundo.
AL: A Rede Sarah é fantástica mesmo. Faço controle anual no Sarah de BH. Mas devo ressaltar que para os lesados medulares não traumáticos, as coisas não são tão glamurosas assim. As pesquisas ainda estão engatinhando nessa área. Eles são excelentes no tratamento de lesões traumáticas (acidente, mergulho, tiro), mas ficam de mãos atadas em lesões não traumáticas.
AL: Dentre seus pacientes, existem pessoas com deficiência permanente? Se não, já pensou em trabalhar com esse público?
CV: Tenho alguns com deficiências permanentes, mas a maioria são casos ortopédicos. Adoro trabalhar com neuro, mas a vida me levou pra ortopedia. Com um ano de formada, fui chamada para trabalhar em uma grande clínica de Ortopedia, e estou até hoje. Já atuei em alguns setores lá dentro, mas nosso maior público não é neurológico.
AL: Você vê alguma diferença entre um paciente com deficiência permanente e um paciente que trata de uma enfermidade passageira?
CV: Acho que não é questão de diferença, são enfoques diferentes e objetivos diferentes. Um paciente se recuperando de uma fratura de fêmur vai seguir um protocolo e terá alta no final, um paciente com Parkinson sabe que terá sempre que seguir uma sequência de exercícios, que não poderá abandonar o trabalho, portanto não chamaria de diferenças, mas sim de protocolos diferentes.
AL: Minha fisioterapeuta adora pacientes neurológicos. Fala que acha um desafio esse tipo de paciente e que é um trabalho extremamente gratificante. Quais são seus maiores desafios na profissão?
CV: Meu maior desafio e também minha maior paixão é trabalhar com o ser humano. Isso me enriquece todos os dias. Cada paciente que passou e passa por mim vem junto com uma grande carga de emoções, de conflitos, medos. E isso, acrescido da patologia que o trouxe até mim, formam um grande desafio diário. Como é bom ver um ganho, uma vitória… Mas também já chorei junto com paciente que teve um retrocesso, que teve uma má notícia, e tudo isso para mim forma a profissão mais linda que existe.
AL: Como faço fisioterapia desde quando tinha dois anos, às vezes, fico meio desmotivada. Mas, nem por isso, deixo o tratamento de lado. Sempre brinco com minha fisioterapeuta que, se pudesse, trocaria a fisioterapia pela hidroterapia. Como manter o paciente motivado?
CV: Isso é muito difícil, mas eu acho que a motivação vem do entusiasmo do fisio, temos que sempre criar novos exercícios, estudar novas técnicas, principalmente com o paciente neurológico que pode há anos fazer tratamento; a criatividade do fisioterapeuta é importantíssima nessa hora, respeitar o paciente e mostrar conhecimento técnico e amor pelo que faz!
AL: Você escreve para o blog Deficiente Alerta. De onde surgiu a ideia do blog? Recebe algum patrocínio? No blog existe uma conta para que os leitores ajudem a manter o blog. As pessoas têm contribuído?
CV: O Blog Deficiente Alerta pertence ao Ricardo Karam. Eu o conheci há três anos, e como já tinha algum material ligado à área ele me convidou para ser uma colaboradora. Eu sempre lutei pelos direitos da Pessoa com Deficiência, pela quebra de preconceitos, e isso inclusive nem está muito ligado à minha profissão, porque desde muito cedo, como já disse, não aceito as deficiências, acho que somos diferentes, e isso só acrescenta nas amizades e relações. Eu não recebo nenhum patrocínio, e nem tenho acesso à conta em questão, sou voluntária, uma colaboradora, faço totalmente por amor.
AL: Você tem muitos amigos com deficiência. Já se relacionou com alguém com deficiência? Como vê essa questão do relacionamento entre pessoas com/sem deficiência? Existe preconceito em relação a esse assunto?
CV: Nunca me relacionei, mas porque nunca aconteceu. Não vejo nada anormal, como já disse, não vejo as deficiências, então para mim não existe essa história de pessoa com ou sem deficiência; para mim são relações entre pessoas que estão se amando e pronto. Cada uma tem suas características e isso só vai enriquecer a relação. É bastante difícil para eu enxergar o preconceito, como para mim ele não existe de verdade, é difícil de entender, mas meus amigos sempre comentam. Sofrer com isso, eu particularmente não teria o mínimo de problema. Que pena que algumas pessoas ainda pensem assim…
AL: Para você, quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência em nosso país?
CV: As pessoas. Eu sempre digo, com boa vontade, damos um jeito para tudo. Lógico que as barreiras arquitetônicas, a falta de informação, tudo isso é bem complicado, mas se todos enxergarem que tudo deve dar acesso a todos; fica bem mais fácil. Comece levando esse conceito na sua casa, para os seus amigos, conhecidos, e quando perceber já contagiou a muitos.
AL: Quem é Cybelle Varonos? Como você se define…
CV: Nossa, isso é difícil. Acho que sou alguém bem normal, trabalho com o que amo, tenho uma família maravilhosa, muitos amigos, adoro viajar, passear e ler. Amo muito as pessoas e os animais. E, acima de tudo, amo e confio em Deus.
AL: Qual mensagem deixaria para os leitores da Rede Saci?
CV: Vou deixar uma experiência minha. Eu sempre lutei pela acessibilidade, pela informação, e hoje tenho amigos que estão junto comigo, que se importam com os outros. Por exemplo, tenho uma amiga que chegou a um hotel com péssima adaptação e foi discutir com o gerente. Antes, era uma pessoa que nem percebia esse tipo de coisa, Então minha mensagem é a seguinte: vamos contagiar quem está perto de nós nessa luta, quem sabe um dia não teremos um grande exército?
Em seu texto, Adriana Lage comenta sobre o preconceito sofrido pelas pessoas com deficiência fazendo alusão ao clássico da Disney Dumbo.
Adriana Lage.
Aproveitei um sábado chuvoso para rever o filme Dumbo. Sempre gostei da sua história. Não é à toa que seja um dos grandes clássicos da Disney. Quando criança, sempre me identificava com o elefantinho simpático, diferente dos demais, que vivia sendo ridicularizado por outras pessoas. Poucos o defendiam… Dumbo sempre me rendeu boas lágrimas! Comprei o DVD de comemoração dos 70 anos do clássico e dei de presente para minha irmã, cinéfila, dizendo que era um filme sobre meu “colega”. Querendo ou não, Dumbo é um dos poucos personagens infantis que apresenta alguma deficiência.
Não tenho como ver a ira da paquiderme Senhora Jumbo ao defender seu filho das gozações das outras pessoas e não me lembrar da minha mãe. Ela sempre foi uma leoa quando mexeram com sua filha por causa da deficiência. Nunca levou desaforo para casa. Com ela, aprendi a lutar, com unhas e dentes, pelos meus direitos. Acho que, na maioria das vezes, as mães de pessoas com deficiência são como a Senhora Jumbo. Hoje em dia, as coisas já melhoraram bem. Mesmo assim, o caminho ainda é longo! Muitas são obrigadas a criarem seus filhos sozinhas, já que os pais fogem logo que descobrem a deficiência. É preciso brigar por uma vaga na escola, por acessibilidade, dizer não e combater qualquer forma de discriminação, etc. As mães que conheço, inclusive a minha, parecem serem dotadas de uma força divina, capaz de suportar qualquer dor e injustiça, e se transformarem em leoas para defenderem suas crias…
Ao ver Dumbo ser ridicularizado em vários momentos, acabei me lembrando dos meus primeiros anos na escola. Não deixaram saudades nenhuma! Foram muito momentos de bullying: meus coleguinhas não queriam fazer trabalho comigo, levava chutes nas pernas e puxões de cabelo de alguns meninos (ainda bem que, na época, não existia o pedala Robinho), alguns ameaçavam me jogar no chão ou levantar minha saia, o menino de quem gostava só aceitou tirar retrato comigo depois que a professora o obrigou, ficava sozinha na sala enquanto meus colegas iam ao parquinho ou à piscina… Frequentemente, a professora me deixava esquecida no escuro do cineminha da escola ou na sala. Minha mãe conta que essa situação, desconhecida para ela até poucos anos atrás, era refletida em meus desenhos coloridos apenas com a cor roxa. Tive que me superar e aprender a me sobressair sendo uma das melhores alunas da escola. Só a partir daí, é que consegui deixar de ser o patinho feio da sala.
Tenho um primo que não possui os dedos das mãos e de um dos pés. Também passou por várias situações de preconceito. Rio demais quando ele relembra uma situação engraçada que passou numa fila de banco. Uma mulher não parava de olhar para ele. Já tinha feito todo um raio-x da figura. Não tirava os olhos das mãos sem dedos. Ele, já incomodado com o fato, tratou logo de mostrar que sua mão funcionava mesmo sem os dedos e deu aquela coçada horrorosa que muitos homens adoram fazer. A mulher perdeu a graça na mesma hora!
Assim como Dumbo, que se superou aprendendo a usar sua diferença a seu favor, tive que aprender a tirar o máximo do mínimo. Minha família sempre me fez acreditar no meu potencial. Sempre segui o lema: “Eu quero, eu posso, eu consigo”. Muitas pessoas com deficiência ainda precisam aprender que os limites impostos pela deficiência, muitas vezes, são mais mentais do que físicos, auditivos ou visuais. De pouquinho em pouquinho, sempre podemos subir mais um degrau. Com o passar do tempo e com as pauladas da vida, aprendemos a lidar com as críticas, as injustiças e os olhares atravessados / piedosos.
O clássico da Disney é um belo filme para dar visibilidade a temas como preconceito, bullying, superação, diversidade… servindo de exemplo não só para as crianças, mas para os adultos também. Serve de reflexão para pensarmos como nos comportamos frente a alguém com deficiência. Por exemplo, sempre fico chateada e invocada quando escuto piadinhas sobre anões e também quando alguém se refere a uma pessoa manca como “deixa que eu chuto”. Outra frase ruim: “sofreu mais que muleta em sovaco de aleijado”. O fato de possuirmos alguma deficiência, não nos torna aberrações da natureza nem seres especiais. A deficiência é apenas mais uma das nossas características. Somos seres humanos como qualquer outro, dotados de qualidades, defeitos, sonhos, força…